quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Caravaggio tragicamente iluminado

"O registro dos crimes, loucuras e desventuras da humanidade".

MICHELANGELO DA CARAVAGGIO

“Aqueles personagens, banhados por uma luz divina e refinada, de uma beleza absurda, eram a imagem da vida de Caravaggio. A luz de Caravaggio é trágica.” Ana Miranda

"Eu tenho os meus princípios, já disse. Não mato mulher, criança e anão. E sou honesto." Rubem Fonseca 


QUADRO DO DEUS ROMANO ESTÁ EM EXPOSIÇÃO EM FLORENÇA
Descoberto autorretrato de Caravaggio no quadro “Baco”
LUSA 
30 de Outubro de 2009, 14:36


O quadro tem 95×85 cm DR

Caravaggio pintou o seu autorretrato no interior do jarro de vinho visível à direita de Baco, no famoso quadro do pintor do deus romano existente na Galeria dos Ofícios, em Florença, segundo peritos italianos citados hoje pela imprensa.
A descoberta foi feita por restauradores e investigadores, através de uma sofisticada análise com recurso a instrumentos da mais avançada tecnologia.
Os resultados da investigação serão hoje comunicados oficialmente ao Comité Nacional para as Celebrações do quarto centenário da morte do pintor, em 1610.
No interior do jarro, Caravaggio pintou a silhueta de um homem, de pé, com um braço estendido. Alguns traços do vulto são claramente distinguíveis, em particular o nariz e os olhos, sendo também perceptível um colarinho.
Os especialistas crêem poder hoje dizer-se que o pintor (1573-1610) fez o seu auto-retrato reflectido num jarro que tinha à sua frente enquanto estava a pintar.
Segundo o jornal italiano "La Stampa", há já algum tempo que se dizia que o vulto de Michelangiolo Merisi da Caravaggio deveria estar oculto num ponto qualquer do quadro, mas ninguém até hoje pudera demonstrá-lo.
Baco, um quadro a óleo de 95 por 85 centímetros, foi pintado por Caravaggio em 1596 e 1597 por encomenda do cardeal Del Monte para o oferecer a Fernando I de Medici, por ocasião do casamento do filho Cosimo II.




"Recomeçar"
1979

HE'S MY BROTHER
1969

Caravaggiando o velho mundo em dez/2017

Para recaravaggiar o novo mundo em jan/2018



Caravaggio: A Vocação De São Mateus (Pinceladas de Arte)


O martírio de São Mateus- Caravaggio


Chiesa di San Luigi dei Francesi, Cappella Contarelli, The Martyrdom of Saint Matthew (detail), 1599-1600, Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) Il martirio di San Matteo
Foto de f_snarfel em flickr


Adobe Make a Masterpiece - São Mateus e O Anjo, de Caravaggio



Caravaggio: Principais obras

Caravaggio e a trilogia de São Mateus em San Luigi dei Francesi


Arte e crime em rota de convergência
Flerte da pintura e da escrita com o desregramento e o delito marcou obras tão díspares como as de Caravaggio, Jean Genet e Rubem Fonseca

Ana Miranda
especial para a Folha
Eu estava há poucos dias diante das três pinturas de Caravaggio (1571-1610), na igreja de S. Luigi dei Francesi, em Roma, quando um homem se aproximou com seu amigo e disse, com aquela ênfase bem italiana: Caravaggio foi um delinquente! Levantei de novo os olhos para a vocação de são Mateus, seu martírio e seu encontro com o anjo. Ali estava uma das maiores obras da arte de todos os tempos. Aqueles personagens, banhados por uma luz divina e refinada, de uma beleza absurda, eram a imagem da vida de Caravaggio. A luz de Caravaggio é trágica. Também sua composição, que obedece a um rigoroso equilíbrio, seus campos negros, seus elementos e a sua alma. Pintou são Mateus com o aspecto de um lavrador rude e cujo analfabetismo é sugerido pela mão do anjo que o faz escrever. O quadro foi rejeitado e substituído por um novo, no nicho da igreja. Pintou a decapitação de Holofernes, o sacrifício de Isaac, a cabeça da Medusa, a crucificação de são Pedro, Davi com a cabeça de Golias ou Salomé com a de Batista, momentos dramáticos e nada edificantes das nossas histórias sagradas. Inquieto, nômade, Caravaggio era um inconformista. Quando conseguia algum dinheiro, saía pela cidade vestido no maior luxo, seguido de um pajem a sustentar sua espada, atrás de alguém que aceitasse provocações. Não conseguia dominar seu temperamento e tinha um desejo descontrolado de ferir. Envolveu-se em episódios de violência com uma impressionante regularidade e agravamento progressivo, culminando num assassinato. Passou sua vida ou nas prisões ou em fuga. Como ele não tinha dinheiro para pagar modelos, olhava-se no espelho e pintava seu próprio moreno e lascivo rosto, o que deu a sua obra um caráter ainda mais autobiográfico. Nada em sua pintura induz à religiosidade nem se desvia da condição humana. Mas leva a pensar em quanto a arte pode nos redimir. Os casos de artistas criminosos não são raros na história. François Villon, tido como um dos maiores poetas franceses, certamente o primeiro dos maiores poetas líricos modernos franceses, levou uma vida desregrada de boêmio, e presume-se que fazia parte de um bando de malfeitores. Em 1455 matou um padre e foi perdoado por esse crime, mas em seguida envolveu-se num roubo a um colégio, o que o obrigou a fugir.

Ruína física e morte
Passou um tempo vagabundeando pela França e acabou preso e condenado à morte, mas a sentença foi anulada -e ele, desterrado de Paris. Um de seus poemas mais conhecidos e belos, sua obra-prima e epitáfio, chama-se "Balada dos Enforcados". "Frères, humains, que après nous vivez" [Irmãos, humanos, que sobreviveis a nós". A poesia de Villon examina sua dissipada vida e expressa um interesse macabro pela ruína física e pela morte, mas também uma compaixão pelos padecimentos dos seres humanos, anotados com uma indiferença irônica. Jean Genet talvez seja o escritor mais marcado por uma vida maldita. Era mendigo, ladrão, homossexual e foi diversas vezes condenado por delitos graves. Escapou da prisão perpétua graças a Sartre, Camus e Cocteau, que articularam um movimento por sua libertação. Nasceu em 1910, na França, como filho ilegítimo; abandonado pela mãe, cresceu em orfanatos dirigidos por padres. Passou a adolescência em reformatórios e a juventude em prisões. Inscreveu-se na Legião Francesa, mas desertou, viveu perambulando, entregue ao roubo e à prostituição. Quando cumpria uma de suas penas, durante a Segunda Guerra Mundial, um dos muitos presos políticos que ali se encontravam deu-lhe um livro de Proust. Impressionado com a leitura, ele passou a escrever, ali mesmo na cela, suas recordações da infância e da adolescência e sua experiência no mundo do crime. Foi capaz de escrever uma obra grandiosa. Mas não foi a terrível realidade descrita nem o mergulho profundo em suas obsessões pessoais que fizeram dele um dos maiores escritores e dramaturgos da literatura universal, e sim a sua capacidade de transformar tudo isso em uma aventura literária, mítica e poética. Esforçou-se por um estilo "descarnado, com os ossos à mostra", em que celebrava o triunfo do mal, a realização dos desejos mais primitivos e espontâneos. Mas do fundo de sua prisão criava ambiciosas metáforas de concepção do mundo, num idioma ritual e suntuoso.

Um novo Genet?
A própria história foi definida, pelo historiador Edward Gibbon, como pouco mais do que "o registro dos crimes, loucuras e desventuras da humanidade". E a literatura também não é muito mais do que isso, desde Homero, que trucida os pretendentes de sua mulher Penélope, passando pelas mãos de lady Macbeth, manchadas de um sangue que não pode ser apagado, até "O Cobrador", de Rubem Fonseca, que mata para cobrar o que estão lhe devendo.
Na literatura recente, no Brasil, tenho notado a publicação assídua não apenas de livros de escritores que tratam do mundo da criminalidade mas também de obras escritas pelos próprios criminosos -ou pessoas que convivem com eles. Alguns presidiários têm encontrado tempo, estímulo ou inspiração para relatar suas vidas da maneira mais verídica e detalhada possível. Apesar de não terem partido de uma formulação proustiana, tudo se passa numa atmosfera tão envolvente quanto um pesadelo. São relatos realistas que buscam, em alguns casos, justificativas para os atos que descrevem: a infância infeliz, uma situação de miséria, a incompreensão de um pai bêbado.
O presidiário Luiz Alberto Mendes, condenado por assalto e assassinato, comenta seu primeiro roubo: "Para mim, estava certíssimo. Os chineses haviam me afastado da criatura que eu mais amava. Apenas cobrava deles, em dinheiro, a imensa infelicidade que me causaram. Era justo, fora por dinheiro, por não querer pagar um pouquinho mais para quem trabalhava havia tantos anos para eles, portanto, nada mais justo que tivessem aquele prejuízo. A única tristeza era minha mãe. Doía minha consciência, mas era mais forte que eu. Precisava viver minha liberdade" [em "Memórias de um Sobrevivente", Companhia das Letras".
Essas obras são importantes, pois mostram as motivações do roubo, do assassinato e o fascínio que o crime tem exercido na mente dos jovens que se sentem excluídos da vida glamourosa e luxuriante apresentada onde quer que se olhe. As razões do crime são complexas, mas os depoimentos impressionam pelas idéias que contêm acerca do valor da vida.
Os que escrevem esses livros são pessoas vulneráveis ao sentimento de marginalidade, que se vêem em busca da redenção pela palavra. São histórias de seres humanos. Ainda não sabemos se entre eles existe algum Genet ou um Villon.


Ana Miranda é escritora, autora de "Que Seja em Segredo" (ed. Dantes), entre outros.



Paulinho da Viola e Elton Medeiros cantam "Recomeçar" – 1979


THE HOLLIES - HE AIN'T HEAVY, HE'S MY BROTHER – LEGENDADO

O Caso Caravaggio


Gabriel Allon, lendário espião e restaurador de arte, está em Veneza para recuperar um altar quando recebe uma convocação urgente da polícia italiana. Seu amigo, o excêntrico negociante de arte Julian Isherwood, deparou-se com uma cena de assassinato no lago Como e foi detido como suspeito. Para salvá-lo, Allon só precisa realizar uma simples tarefa: encontrar a pintura desaparecida mais famosa do mundo.

A questão é: às vezes, a melhor maneira de encontrar uma obra-prima roubada é roubando outra...
O homem assassinado é um espião inglês decadente com um segredo: vendia obras de arte roubadas para um misterioso colecionador. Entre as pinturas está a mais emblemática obra de todas: Natividade com São Francisco e São Lourenço, de Caravaggio.

Para recuperar o Caravaggio e descobrir a identidade do colecionador, Allon embarca em uma jornada ousada. Uma busca que vai se transformar em uma estimulante caçada — dos charmosos boulevards de Paris e Londres aos sórdidos submundos do crime de Marselha e Córsega, e, finalmente, até um pequeno banco privado na Áustria, onde um perigoso homem vigia a riqueza ilícita de um dos ditadores mais brutais do mundo. Ao lado de Allon está uma jovem corajosa que sobreviveu a um dos piores massacres do século XX, cuja ajuda será crucial para a conclusão desse mistério.

Suspense e Mistério


Rubem Fonseca O Caso Morel

Descrição do livro
“Suspeito que o universo não é apenas mais estranho do que supomos: é mais estranho do que somos capazes de supor.”
Fiel a essa máxima, O caso Morel não é apenas um ótimo entretenimento, um livro que arrebata o leitor da primeira à última linha. É, antes de tudo, uma das mais inquietantes reflexões sobre o sentido moral da arte.
Com a maestria que lhe é característica, Rubem Fonseca criou aqui um círculo de personagens inesquecíveis, da prostituta desamparada à grã-fina em busca de aventuras, passando pelo carismático Paul Morel, figura emblemática de um artista capaz de levar ao extremo da corrosão e da fúria sua inquietação frente à arte e ao mundo.

'Um homem de princípios': conto inédito de Rubem Fonseca
Texto faz parte do último livro do autor, 'Calibre 22', que chega às lojas na próxima semana
POR O GLOBO
01/04/2017 4:30


 Rubem Fonseca, por Loredano - Cássio Loredano / Agência O GLOBO

Não gosto de matar barata, nem piolho, nem seres humanos. Não mato por ódio, ciúme, inveja, medo, casos em que o mata-dor é também vítima desse sentimento, ou, se preferem, dessa percepção, ou noção, ou senso, ou consciência. Não conheço as pessoas que eu empacoto. Nada sinto por elas, mas tenho meus princípios.
O Despachante, que eu nunca via pessoalmente — não sabia se ele era branco ou preto, alto ou baixo, magro ou gordo —, en-viou para mim do celular descartável uma foto com o nome e o endereço do freguês. O Despachante depositaria na minha conta metade do pagamento adiantado e a outra metade depois que eu fizesse o serviço.
O freguês, um sujeito gordo, calvo, na faixa dos quarenta anos, morava na Zona Sul, num prédio na quadra da praia, e todos os dias saía de manhã para tomar um cafezinho e comer pão de queijo, essa coisa engordativa, numa loja de conveniên-cia (acho esse nome idiota) que ficava perto da praça que tem o nome de um poeta e prosador português do século XIX. Sei que as pessoas, em sua maioria, são ignorantes e não sabem de qual poeta estou falando. Isso é bom.
O prédio tinha porteiro dia e noite. Eles se revezavam de oito em oito horas. Ficavam atrás de vidros escuros, as pessoas da rua não os viam, mas eles as viam nitidamente. Na porta de entrada da grade que cercava o edifício havia uma pequena caixa protegida da chuva que recebia e transmitia a voz, e um pino de campainha para o visitante apertar. Se fosse um mora-dor, o porteiro acionava um comando eletrônico e abria a porta. Mesmo sendo um parente do morador, o porteiro só o deixava entrar se recebesse autorização expressa antes. No caso de um desconhecido, o porteiro perguntava pelo alto-falante o nome e o seu objetivo. Se o desconhecido dissesse um nome que não constava da lista de todos os moradores que o porteiro tinha à sua frente, ele respondia secamente, “não mora aqui”. Esqueci de dizer que à noite uma luz se acendia com o foco dirigido para a porta de entrada.
Resumindo: eu tinha que chumbar o freguês em outro local que não fosse a sua casa.
Passei a ir bem cedo à loja de conveniência esperar o freguês. Ele chegava impreterivelmente às dez da manhã, ia direto para o balcão onde ficava a máquina de fazer café e o forno que assava o pão de queijo, fazia o seu pedido e sentava numa mesa. Sempre a mesma mesa. A garçonete trazia o café, o pacotinho de açúcar e o de chocolate e quatro pães de queijo. Quatro! Barrigudo daquele jeito, ele certamente comia escondido da mulher.
Sempre levo comigo a minha ferramenta, uma Beretta M9 com carregador de quinze balas, num coldre especial colocado abaixo da axila, sob o blusão. A empunhadura da Beretta fica-va para baixo. Dentro da loja eu não podia chumbar o freguês. Meu desejo era que ele fosse para a praça do poeta, mas o freguês voltava para casa. A mulher desses caras gordos sempre manda neles. Aliás, todas as mulheres mandam no marido. Minha mãe não mandava no meu pai porque ela morreu no parto. Eu matei minha mãe? Meu pai também morreu cedo. Isso tudo eu conto algum dia.
Na terceira manhã em que eu observava dissimuladamente o gordo comer os pães de queijo no posto, ele se levantou para ir à caixa pagar a despesa, mas, ao passar perto da minha mesa, puxou uma cadeira e sentou-se dizendo “bom dia”.
Já disse que sou puta velha. Respondi calmamente: “Bom dia.”
“Meu nome é Xavier”, ele disse, “com xis”. “O meu é José. Muito prazer.”
A voz do freguês era tranquila, um pouco espessa.
“Vou ser breve. Percebi que o senhor nestes três dias aqui no posto me observa dissimuladamente. Isso significa que tem um objetivo, que eu suponho qual seja. Sei que o senhor é um... um matador profissional.”
Meneei a cabeça.
“Tenho uma proposta a lhe fazer”, ele disse. “Sim.”
“Posso fazer a proposta?” “Sim.”
“Quero que você mate a minha mulher. Pago o dobro, o triplo do que você iria receber se me matasse.”
Ele agora já não me tratava mais de senhor, acreditava que como eu seria seu empregado, ou servidor, não precisava mais ter deferência, consideração por mim.
“Quanto e onde?”, perguntei.
Ele tirou um maço de notas de cem dólares do bolso. “Me paga depois. Onde será feito o serviço?”
“Na minha casa. Vamos juntos, eu toco a campainha, ela espia pelo olho mágico, vê que sou eu e abre a porta. Ela não abre a porta para ninguém. O senhor mata a minha mulher. Sua arma tem silenciador?”
“Evidentemente”, respondi.
“Nós entramos, abrimos as gavetas e mexemos nos armários, para fingir que foi um assalto.”
“Essa ideia é muito boa”, eu disse.
“Depois eu te pago e vamos embora. Eu vou ao supermerca-do fazer umas compras, e você sai de novo escondido no carro. Quando eu voltar, vejo a minha mulher morta, chamo a polícia...”
“Perfeito. Quando?”
“Agora”, ele respondeu. “Vamos entrar pela garagem, o se-nhor fica escondido no banco de trás. O carro está aqui no posto. Já disse que vou ao supermercado e sempre volto carregado de compras, inutilidades que a megera me obriga a comprar.”
Megera. O cara não gostava mesmo da mulher.
Entramos pela garagem, subimos, saltamos no hall do andar dele.
Não sei se já disse, mas aquele prédio tinha apenas um apar-tamento por andar. Tirei a minha Beretta do coldre.
“Um momento, não toca ainda a campainha”, eu disse, “espera eu colocar o silenciador”.
Coloquei o silenciador, destravei a Beretta e dei um tiro na cabeça do Xavier. Eu sei o lugar na cabeça que apaga o freguês. Segurei-o para que não fizesse barulho ao cair.
Saí pela garagem, usando os óculos escuros do morto. Os vi-dros escuros não deixavam ver direito quem dirigia o BMW. Es-ses ricos só usam carros bacanas.
Deixei o carro perto do supermercado. Fui andando pela rua.
Eu tenho os meus princípios, já disse. Não mato mulher, criança e anão. E sou honesto.


Referências

https://imagens.publicocdn.com/imagens.aspx/284220?tp=UH&db=IMAGENS&w=823
https://www.publico.pt/2009/10/30/culturaipsilon/noticia/descoberto-autoretrato-de-caravaggio-no-quadro-baco-1407586
https://i.pinimg.com/236x/dc/f8/bb/dcf8bbc10e37a07d48f9f5be931cbc66.jpg
https://i.pinimg.com/564x/53/8e/ce/538ece66368ebdb8cfc3e1ef766adf48.jpg
https://youtu.be/6Ev1iPU2UAM
https://youtu.be/IdoWped65CE
http://post-italy.com/caravaggio-roma-san-luigi-dei-francesi/
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1703200215.htm
https://youtu.be/pBdqU5uf_Vw
https://youtu.be/gIwtLumZeZY
https://www.skoob.com.br/o-caso-caravaggio-548609ed558736.html
https://ogimg.infoglobo.com.br/in/21143869-b49-dba/FT460A/x33920925_PVRubem-Fonseca-por-Loredano.jpg.pagespeed.ic.c2ryR-e7hF.jpg
http://lelivros.love/book/download-o-caso-morel-rubem-fonseca-em-epub-mobi-e-pdf/
https://ogimg.infoglobo.com.br/in/21143869-b49-dba/FT460A/x33920925_PVRubem-Fonseca-por-Loredano.jpg.pagespeed.ic.c2ryR-e7hF.jpg
https://oglobo.globo.com/cultura/livros/um-homem-de-principios-conto-inedito-de-rubem-fonseca-21143695
http://www.telegraph.co.uk/culture/art/art-news/6468623/Tiny-Caravaggio-self-portrait-revealed-by-technology.html

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Samba "Praça Onze" nasceu num dia...

Numa noite, numa noite em uma viagem entre Niterói e Rio de Janeiro. Grande Othelo

Os negros protestaram no carnaval de 1941, com a marcha “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo, que lamentava o fim do logradouro: “Vão acabar com a Praça Onze/Não vai haver mais Escola de Samba...”.


Praça Onze, 1930. No destaque, a capa do livro "Negros e Judeus na Praça Onze. A história que não ficou na memória".




Praça Onze
Herivelto Martins
 
Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai
Chora o tamborim
Chora o morro inteiro
Favela, Salgueiro
Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai

Adeus, minha Praça Onze, adeus
Já sabemos que vais desaparecer
Leva contigo a nossa recordação
Mas ficarás eternamente em nosso coração
E algum dia nova praça nós teremos
E o teu passado cantaremos
Composição: Grande Otelo / Herivelto Martins



Grande Otelo: O "Praça Onze" eu já fazia os versos, conforme eu fiz "Desperta Brasil". Eu fiz uns versos que diziam assim, porque o Davi Nasser fez uma crônica a propósito dos projetos que existiam na época, fazer ali na Praça Onze o busto do Dr. Getúlio Vargas e fazer a [avenida] presidente Getúlio Vargas [A Praça Onze, situada no Rio de Janeiro, é considerada o berço do samba, tendo sido ponto de encontro dos negros, músicos e compositores anônimos, autores de maxixes e marchinhas. Era também o local onde as camadas populares festejavam o carnaval]. Então, eu fiquei muito sentido, porque eu tinha visto samba na Praça Onze e sabia como era gostoso, animado e entusiasmado. Eu fiz: "Meu povo, este ano a escola não sai. Vou lhes dar explicações: não temos mais a Praça Onze para as nossas evoluções. Ali, onde a cabrocha mostrava o seu requebrado, um grande homem no bronze será por todos lembrado", e queria que isso fosse um samba, mostrei para vários compositores e nenhum deles se interessou. O Herivelto Martins, por acaso, nessa época, entrou para o Cassino da Urca onde eu já estava, e eu toca aborrecer a paciência do Herivelto Martins. Um dia, o Herivelto diz: "Me dá aqui essa porcaria!" Pegou, botou na perna, pegou o violão e: "Vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai..." [cantando]. E saiu a primeira parte. Naquela época, nós viajávamos para Niterói numa barquinha e voltávamos numa lancha, e voltávamos de barca, e na volta da barca o Herivelto Martins pegou o violão novamente e fez a segunda parte. Esse samba "Praça Onze" nasceu num dia... numa noite, numa noite em uma viagem entre Niterói e Rio de Janeiro.
http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/203/entrevistados/grande_otelo_1987.htm


Grande Othelo - 15/06/1987

NASSER, Davi
*jornalista.

Davi Nasser nasceu na cidade de São Paulo no dia 1º de janeiro de 1917, filho de um casal de imigrantes libaneses.
Tinha poucos meses de idade quando sua família mudou-se para Mato Grosso e depois para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde permaneceu até 1923. Transferindo-se para Caxambu (MG), fez o curso primário no Grupo Escolar Padre Correia de Almeida. De volta ao Rio aos 14 anos, aos 16 iniciou sua carreira jornalística como repórter do matutino O Jornal, da cadeia dos Diários Associados, de cujo condomínio acionário viria a participar.
De 1936 a 1944 foi repórter de O Globo, do Rio de Janeiro, ocasião em que combateu o nazismo, o integralismo e o regime do Estado Novo (1937-1945). Em 1944 voltou aos Diários Associados. Realizou reportagem, quase sempre em colaboração com o fotógrafo Jean Manzon, pelo Brasil e por outros países americanos. Escreveu por muito tempo na revista carioca O Cruzeiro. Em 1965 foi eleito presidente de honra da Escuderie Le Cocq, formada por policiais do Rio de Janeiro para homenagear um detetive morto em serviço. Em maio de 1975 desligou-se do condomínio acionário das Emissoras e Diários Associados, alegando discordar da orientação imprimida por seu presidente, o então senador João Calmon. Passou então a escrever na revista Manchete, do Rio de Janeiro.
Além de jornalista, foi historiador, panfletista, cronista, poeta e compositor.
Faleceu no Rio de Janeiro no dia 10 de dezembro de 1980.
Era casado com Isabel Audi Nasser.
Publicou Mergulho na aventura (reportagens, em colaboração com Jean Manzon, 1945), Falta alguém em Nuremberg: torturas da polícia de Filinto Strubing Müller (1947), Para Dutra ler na cama (1947), Só meu sangue é alemão (1949), A revolução dos covardes — diário secreto de Severo Fournier (reportagens, 1949), A vida trepidante de Carmen Miranda (1951), O velho capitão e outras histórias reais (1961), Portugal meu avozinho (1965), Jânio, a face cruel (1966) e A cruz de Jerusalém.


FONTES: CONSULT. MAGALHÃES, B.; Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (11/6/75, 11 e 12/12/80); MELO, L. Dic.; MENESES, R. Dic.; Última Hora (22/5/75).



David Nasser, o repórter que inventava a notícia
Dois anos de trabalho, encerrados em junho, mais de cem entrevistas, algumas com duração de horas, trabalho exaustivo de pesquisa em arquivos públicos e particulares deram corpo ao livro Cobras Criadas - David Nasser e O Cruzeiro - uma biografia do jornalista David Nasser que é, ao mesmo tempo, a história dos tempos áureos da revista em que trabalhou entre 1943 e 1974, carro-chefe das publicações do império de Assis Chateaubriand, escrita pelo também jornalista Luiz Maklouf Carvalho (Editora Senac São Paulo, 600 págs., R$ 45,00). David Nasser foi o repórter mais famoso de seu tempo - entre os anos 50 e os 70. Não deve ser aplicado a ele - embora eventualmente seja aplicado - o adjetivo "polêmico". Não era polêmico. Era uma figura de poucos escrúpulos, que dava pouca importância para os fatos e muita importância para o efeito de suas reportagens. Inventava, alterava, adequava a realidade à carga de efeito que seus escritos pudessem trazer. Era mais importante do que a notícia - opinião corroborada por seus companheiros de trabalho - tanto por aqueles que dele gostavam quanto pelos que o detestavam -, pelos amigos, pelos parceiros circunstanciais. Era um homem de imenso talento para escrever e com capacidade aparentemente inesgotável de trabalho. Escreveu livros de grande repercussão - quase sempre apoiados ou baseados em suas próprias reportagens - e compôs cerca de 300 músicas, algumas de muito sucesso, como Nêga do Cabelo Duro (com Rubens Soares), Canta Brasil (com Alcir Pires Vermelho), Camisola do Dia, Hoje Quem Paga Sou Eu, Atiraste uma Pedra (com Herivelto Martins), Confete (aquela do "pedacinho colorido de saudade", com Jota Júnior), Normalista (com Benedito Lacerda, grande sucesso na voz do amigo Nelson Gonçalves), A Coroa do Rei (com Haroldo Lobo) e até a valsa que ainda hoje serve de vinheta para o fim de ano da Rede Globo: Fim de Ano ( "Adeus ano velho, feliz ano-novo..."), parceria com Francisco Alves. Foi ativista e membro de diretoria de órgãos de defesa de direitos autorais - União Brasileira de Compositores (UBC) e Serviço de Defesa do Direito Autoral (SDDA). As duas sociedades são desacreditadas. O SDDA foi alvo de uma CPI em 1967, durante o governo Costa e Silva. David Nasser foi amigo de políticos, artistas, atletas. Orgulhava-se de ser diretor de honra da tristemente famosa Scuderie Le Cock, nome de fantasia - expressão empregada por Luiz Maklouf - do Esquadrão da Morte que atuou no Rio de Janeiro. O caixão de Nasser, em seu enterro, estava coberto pela bandeira - uma caveira, duas tíbias cruzadas - do Esquadrão. Os negócios musicais de Nasser eram administrados por duas firmas de sua propriedade, que tiveram forte atuação no lobby que conseguiu, nos anos 60, a isenção fiscal para os produtos fonográficos (o então ministro Delfim Netto entrou na defesa da causa). Para tanto, aplicou-se, na capa dos discos, a frase "Disco É Cultura". A lei foi aprovada; nos anos 90, foi revogada e voltou a valer. Ganham com ela, principalmente, as multinacionais do setor. Os pais de Nasser eram libaneses. David nasceu em Jaú, no interior de São Paulo, em 1917. Os primeiros anos de vida foram passados em Caxambu, Minas Gerais, e, quando era adolescente, foi com a família para o Rio de Janeiro. Ajudava na renda como camelô, vendendo bugigangas - pentes, giletes, na Central do Brasil. Teve meningite, que lhe deixou seqüelas. Andava com dificuldade ("como se estivesse bêbado"), tinha os movimentos das mãos atrapalhados - derrrubava coisas, sujava-se e sujava tudo em volta quando comia, enxergava mal. Escrevia com dois dedos. Para concorrer com Nelson Rodrigues, que publicava o folhetim Meu Destino É Pecar, em O Jornal, sob o pseudônimo de Suzana Flag, aumentando a tiragem do diário, David Nasser inventou uma personagem para o Diário da Noite, outra publicação dos Diários Associados, de Chateaubriand. Os que têm mais de 50 anos não esqueceriam Giselle - A Espiã Nua Que Abalou Paris. Giselle era tratada como personagem de fato: o Diário da Noite anunciou que comprara "com exclusividade" as memórias da bela mulher que passara de cama de nazista em cama de nazista obtendo informações para as forças aliadas. Para garantir a verossimilhança, o Diário chamou a série de "documentário" traduzido do original francês por um certo jornalista italiano chamado Carlos Tancini, que estaria de passagem pelo Rio - e que nunca existiu. A série escrita por David Nasser teve 59 capítulos. Seu parceiro de nove anos de trabalhos bombásticos, o fotógrafo francês Jean Manzon, era o encarregado de produzir as fotos de Giselle. Sobre ela, fala Freddy Chateaubriand, sobrinho de Assis, chefe de Nasser e Manzon: "Nunca houve Giselle, ela nunca abalou Paris, mas o Diário da Noite foi o jornal de maior circulação daquela época. O Manzon trazia aquelas fotos não sei de onde, e o David escrevia com aquela facilidade." Mais tarde, uma editora comprou os direitos sobre a personagem e publicou livrecos que eram vendidos em bancas de jornais, com altas tiragens. Era o que mais próximo se aproximava da literatura erótica disponível para os adolescentes dos anos 60. O poeta Augusto Frederico Schmidt chegou a escrever uma história, como revela Maklouf. Freddy não é o único a revelar o método de trabalho de David Nasser. Seus companheiros de redação - ou os parceiros, conhecidos - são unânimes: um homem brilhante, mas sem escrúpulos. A dupla Nasser-Manzon funcionou de 1943 a 1951. Produziu material que espantou o País, entre eles a intitulada Barreto Pinto sem Máscara, de 1946, em que o deputado, amigo de Getúlio, aparece de fraque e cuecas. Na versão de Barreto Pinto, a dupla havia prometido que só usaria a imagem da barriga para cima. O deputado foi cassado. Eles teriam fotografado pela primeira vez - é fato, as imagens apareceram pela primeira vez - uma tribo xavante (Nasser escrevia "chavante"). A descrição do "ataque" dos índios ao avião são belos exemplos de má ficção. Parece que Nasser não estava no vôo. Duvida-se que Manzon tenha de fato feito as fotos. Parece que o material foi aproveitado de um filme feito pelo DIP, departamento de propaganda do Estado Novo, em que Manzon trabalhou. A dupla consegiu fotografar a mulher de Chiang Kai-shek, mulher do líder chinês anti-comunista, que esteve no Brasil , em 1944. Era um furo. Ao que se apura, o próprio David Nasser, vestido de mulher, se fez passar pela chinesa. Uma das mais longas séries de reportagem de David Nasser, já sem Manzon como companheiro, foi sobre o assassinato de Aída Cúri, em julho de 1958. Ela era uma menina de 18 anos, que passara 12 num colégio de freiras. Foi abordada por um grupo de rapazes, em Copacabana. Dois deles a convenceram a subir ao terraço de um prédio, entrada facilitada pelo fato do padrasto de um deles ser síndico do edifício. Aída Cúri foi currada e caiu morta na calçada. O crime rendeu um livro, além da série de reportagens, e foi assunto constante no programa que David Nasser teve na TV Tupi: começava com um grito, supostamente de uma mulher caindo. David Nasser morreu rico - tornou-se empresário bem-sucedido - aos 63 anos. Praticou um tipo de jornalismo que não existe mais na grande imprensa - até porque há mecanismos que permitem identificar a veracidade das informações publicadas. Mas houve um tempo em que era possível.
Agencia Estado,
04 Novembro 2001 | 11h28



50 anos do assassinato de Aída Curi – O fotojornalismo fazendo escola na revista O Cruzeiro
 Leandra Francischett
Resumo
A revista O Cruzeiro é conhecida pela sua contribuição ao fotojornalismo nacional ao destacar as fotos em relação aos textos. A cobertura do assassinato da jovem Aída Curi, em 1958, demonstra o caráter sensacionalista desse veículo, principalmente com a divulgação de fotos da moça logo após ser jogada do 12o andar, incluindo a poça de sangue ao redor da sua cabeça e as vestes rasgadas. Esse crime aconteceu num momento em que o cinema estimulava atitudes fora da lei, como no filme “Juventude Transviada”. Mesmo assim, esse crime não foi elucidado, os culpados não foram condenados e, 50 anos mais tarde, a morte da menina Isabella Nardoni, jogada do 6o andar, ocupa a atenção da imprensa.




Biografia

http://www.conib.org.br/admin//media/images/1436193758-Praca%20Onze%201930.jpg
http://www.conib.org.br/blog/noticias/1061/negros_e_judeus_na_praa_onze_rio_de_janeiro_a_histria_que_quer_ficar_na_memria
http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/203/entrevistados/grande_otelo_1987.htm
https://youtu.be/rcDCPDrOj2Q
http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/nasser-davi
https://youtu.be/rcDCPDrOj2Q
http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,david-nasser-o-reporter-que-inventava-a-noticia,20011104p4531
http://www.bocc.ubi.pt/pag/francischett-leandra-assassinato-de-aida-curi.pdf

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

“Inapta” ou “Inepta”, a defesa de Lula?

MS incurial e aluado...

Defesa minguada e inapta

Mandado denegado

Bens de Lula seguem bloqueados


Além de condená-lo a 9 anos e 6 meses

Sentença de Moro havia bloqueado seus bens


Operação Lava Jato: levantamento do bloqueio de bens do ex-presidente Lula deve ser requerido em primeira instância, decide TRF4

28/11/2017 09:59:20

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) manteve o bloqueio de R$ 16 milhões do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinado pela 13ª Vara Federal de Curitiba na sentença condenatória do caso do apartamento triplex. A 8ª Turma, por unanimidade, negou seguimento ao mandado de segurança impetrado pela defesa de Lula. Os desembargadores decidiram que o levantamento do bloqueio deve ser requerido em primeira instância. A sessão de julgamento ocorreu hoje (28/11) pela manhã.
O mandado de segurança (MS) foi ajuizado pelo advogado Cristiano Zanin Martins em julho deste ano. O desembargador federal João Pedro Gebran Neto, relator dos processos da Operação Lava Jato no tribunal, negou seguimento ao MS. Segundo Gebran, o instrumento processual correto para o pedido de levantamento de constrição de bens é o incidente de restituição de coisas apreendidas e não o mandado de segurança.
O desembargador frisou ainda que a apreciação do pedido pelo tribunal seria uma supressão de instância e que a questão deveria ser submetida antes ao Juízo de primeiro grau. “É imprescindível o exame inicial pela autoridade judiciária que determinou a medida”, ressaltou Gebran em sua decisão liminar.
A defesa ajuizou então agravo regimental em mandado de segurança tentando assegurar o julgamento do pedido pela 8ª Turma, o que ocorreu hoje. Entretanto, por unanimidade, foi mantida a decisão de Gebran.

5039007-66.2017.4.04.0000/TRF



LAVA JATO
TRF4 MANTÉM BLOQUEIO DE R$16 MILHÕES DE LULA NO CASO DO TRIPLEX
JUÍZES NÃO REVOGAM BLOQUEIO NAS CONTAS DE LULA, O MILIONÁRIO
Publicado: 28 de novembro de 2017 às 11:24 - Atualizado às 09:44


SÉRGIO MORO BLOQUEOU BENS DE LULA AO CONDENÁ-LO A 9 ANOS E 6 MESES NA LAVA JATO (FOTO: MARCELO CAMARGO/ABR)

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), de Porto Alegre, negou nesta terça-feira, 28, recurso da defesa do ex-presidente Lula para que fosse revertida a decisão do juiz Sérgio Moro que determinou, em julho, um bloqueio de R$ 16 milhões em bens do petista, ao condená-lo a nove anos e meio de prisão no caso do apartamento tríplex no Guarujá (SP), investigado na Operação Lava Jato.
O recurso usado pela defesa do ex-presidente foi o agravo regimental, com objetivo de garantir o julgamento do mandado de segurança. Porém, a 8ª Turma do TRF4 decidiu, por unanimidade, não dar sequência a essa análise. No entendimento dos desembargadores federais na segunda instância, o levantamento do bloqueio de bens deve ser requerido em primeira instância, em Curitiba.
Segundo o desembargador relator João Pedro Gebran Neto, relator do caso no TRF4, o instrumento processual correto para o pedido de levantamento de bens é o "incidente de restituição de coisas apreendidas" e não o "mandado de segurança". Gebran Neto já havia rejeitado anteriormente o pedido de levantamento do bloqueio. Logo em seguida, o advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, entrou com um agravo para que a questão fosse julgada pela Oitava Turma do TRF4, o que ocorreu nesta terça-feira.
Entre os recursos, além de imóveis e carros, constam R$ 606,7 mil em contas bancárias e mais de R$ 9 milhões em planos de previdência.
No pedido feito ao TRF4, o advogado de Lula, Cristiano Zanin, disse que o bloqueio é ilegal e que a suspensão deve ser anulada para garantir a subsistência do ex-presidente. “O próprio juiz [Moro], ao julgar embargos de declaração opostos contra a sentença pela defesa de Lula, reconheceu que nenhum valor proveniente de contratos da Petrobras foram dirigidos ao ex-presidente”, escreveu o defensor.



INSTRUMENTO INCORRETO
MS não serve para desbloquear bens, diz TRF-4 ao negar pedido de Lula

28 de novembro de 2017, 11h45
Não é possível o levantamento de bloqueio de bens por mandado de segurança. De acordo com a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, o instrumento processual correto para o pedido de levantamento de constrição de bens é o incidente de restituição de coisas apreendidas.




TRF-4 manteve bloqueio de bens do ex-presidente Lula no valor de R$ 16 milhões.
Reprodução


Esse foi o entendimento aplicado pelo colegiado nesta terça-feira (28/11) ao manter o bloqueio de R$ 16 milhões em bens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, determinado pela 13ª Vara Federal de Curitiba na sentença condenatória do caso do apartamento triplex.
Seguindo o voto do desembargador Gebran Neto, relator, o colegiado concluiu também que o pedido não poderia ter sido feito diretamente ao TRF, pois a análise pela corte configuraria uma supressão de instância. “É imprescindível o exame inicial pela autoridade judiciária que determinou a medida”, ressaltou Gebran.
O mandado de segurança foi ajuizado pelo advogado Cristiano Zanin Martins em julho deste ano alegando que o bloqueio era nulo e ilegal. No MS, a defesa de Lula afirma que há três ilegalidades na decisão de Moro: ilegitimidade do Ministério Público Federal para solicitar medida cautelar destinada a assegurar o pagamento de futuro e eventual dano em favor da Petrobras; impossibilidade de sequestro de bens que têm origem lícita e que foram adquiridos por Lula antes dos fatos afirmados pela acusação; e inexistência de qualquer fato concreto que demonstre risco de dilapidação patrimonial e justifique a necessidade de medida cautelar.
Ao determinar o bloqueio de bens de Lula, Moro afirmou que a medida é necessária para reparação de danos à Petrobras. A medida foi tomada no processo em que o petista foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão, em primeira instância, no caso do tríplex em Guarujá (SP).
Lula foi condenado no dia 12 de julho por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter ganhado um apartamento da construtora OAS. O valor do dano causado pelo ex-presidente, segundo Moro, foi de 3% sobre o valor do contrato da empreiteira com a Petrobras para construção das usinas Conpar e RNest, o que resulta em R$ 16 milhões. Com informações da Assessoria de Imprensa do TRF-4.
5039007-66.2017.4.04.0000



• INAPTO, INEPTO
"- Apesar do treino intensivo proporcionado pela empresa, Paulinho foi considerado inapto para exercer as funções de digitador.

- Políticos ineptos não são uma raridade, infelizmente.

Inapto quer dizer “não apto, incapaz, inabilitado”. Inepto, além de “sem nenhuma aptidão”, tem ainda o significado de “bobo, tolo, idiota”. Portanto, ser chamado de inepto pode ser realmente ofensivo. Os substantivos respectivos são: inaptidão e inépcia." 

Tira-dúvidas de vocabulário



“Convém não confundir. Inapto é o que demonstra falta de habilidade, falta de condições para realizar algum trabalho. Existem motoristas inaptos, artesãos inaptos, professores inaptos, mas dificilmente existirão diplomatas inaptos. Subst, corresp.: inaptidão. Inepto é o que se mostra mentalmente sem capacidade, é o estúpido, o idiota. Políticos ineptos não podem aspirar à presidência da República. Subst.corresp.: ineptidão, inépcia.“ (Dicionário de Dúvidas, Dificuldades e Curiosidades da Língua Portuguesa, Editora Harbra, 1ª ed., 2005, p. 22)
David Fares



Referências

https://www2.trf4.jus.br/trf4/controlador.php?acao=noticia_visualizar&id_noticia=13337
http://www.diariodopoder.com.br/style/images/images/Lulatenso-foto%20Marcelo%20Camargo.jpg
http://www.diariodopoder.com.br/noticia.php?i=92356922680
https://www.conjur.com.br/img/b/lula3.jpeg
https://www.conjur.com.br/2017-nov-28/ms-nao-serve-desbloquear-bens-trf-negar-pedido-lula
http://ambitojuridico.com.br/site/?n_link=visualiza_dica&id_noticia=5765

http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/2518297

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Morada de Gatunos

Mormente

"O pensamento já não é a consciência social da práxis, do pensar para transformar, para emancipar, para estar junto com os outros. O pensamento pobre sobre ricos e pobres em vez do pensamento rico sobre pobres e ricos, sobre as contradições que nos dividem e nos afundam." José de Souza Martins

De antigamente a modernamente
De então a recentemente
De anteriormente a presentemente
De antes a hoje
De dantes a hodiernamente
De antanho a ultimamente

Atualmente, contemporaneamente.


Vista do Morro da Favella (Morro da Providência)

“Na Favella – Trecho inédito do Rio – A morada dos gatunos e desordeiros”, publicada em maio de 1903 na Gazeta de Notícias:
Neste morro da Providência moram os mais terríveis malandros do mundo, com mulheres tremendas e assassinatos semanais.
─ Isso é literário demais!
─ Literário? Olha, se gostas dos romances do visconde Ponson ou do visconde Montepio, tens campo vasto para examinar de perto uma sociedade como a inventada por eles.
─ Muitas mortes?
─ Semanalmente.
─ Pois então subo.
Subimos o morro por um íngreme caminho bordado de águas empoçadas por onde vão negras maltrapilhas, moleques desnudos, tipos suspeitos de lenço ao pescoço. É impossível imaginar que ali, no centro da cidade, habite gente tão estranha e com uma vida tão própria. A proporção que vamos caminhando vamos admirando as habitações daqueles estranhos moradores, desde o sopé da montanha as casas são todas feitas de bambu entrelaçado com barro tendo por teto pedaços de folhas-de-flandres. (NA FAVELLA, 1903)


sexta-feira, 24 de novembro de 2017
José de Souza Martins: Pensamento pobre
- Valor Econômico / Eu &Fim de Semana

Em comparação com minha época de estudante, as pessoas de hoje são muito mais informadas do que eram as daquele tempo. Mas não são menos ignorantes. Sabem muito, mas imprópria e provisoriamente. Sabedoria que chega ao interessado com uma clicada no celular ou no computador para ser esquecida em 20 minutos. Ficam resíduos que vão constituir a nova cultura popular dos cheios de certeza sobre todos os assuntos. Mas, uma coisa é ficar sabendo, outra, muito diferente, é saber. Por isso, somos hoje mais enganados do que éramos há meio século.

No geral, sabem acertar no acaso dos testes de múltipla escolha, mas não sabem explicar a construção da pergunta nem a razão da resposta. Quem, como eu, é professor universitário, sabe que há diferenças de competência entre os alunos que ingressaram nas grandes universidades em 1960 e os que estão nelas ingressando em 2017. No peneiramento dos talentos, que ocorre ao longo do curso universitário, apenas uma parte dos ingressantes tem as características próprias do que Karl Mannheim define como intelectual. Felizmente, ainda são muitos que as têm porque é muito maior do que no passado o número dos que chegam à universidade, embora sobrem proporcionalmente em menor número.

O maior e mais fácil acesso a fontes de informação difundiu uma cultura padronizada, privada de componentes críticos e de raciocínio próprio de gente que até sabe responder as perguntas, mas que não sabe desconstruí-las, decifrar-lhes as conexões de sentido, entender-lhes a lógica interna. Perguntas são apenas causas de respostas, já não propriamente desafios de interpretação. As hierarquias, no âmbito do conhecimento, foram substituídas pelas equivalências e seus signos. Tudo parece equivalente, o que enche esses novos sábios do cotidiano de certezas definitivas e absolutas. Os saberes são medidos pelo mesmo metro, por mais diferentes que sejam entre si.

Na era do almoço por quilo não há a menor diferença entre filé-mignon e repolho. Não há, também, a menor diferença entre o saber de um engenheiro que teve formação científica e um engenheiro que teve apenas formação técnica. Não há diferença entre um médico que ausculta, apalpa e diagnostica e um médico capaz de fazer um diagnóstico cientificamente explicativo, com base em pesquisa científica. Não há diferença entre o economista capaz de fazer cortes e ajustes na economia que afeta a todos e o economista capaz de propor políticas econômicas baseadas em diagnósticos fundamentados, mas também em avaliações científicas das consequências sociais das medidas que propõe. Não há diferença entre o economista que faz estudos e análises com base na premissa do primado da produtividade e o que é capaz de pensar a economia com base na função da produtividade no bem-estar social.

Embora haja muitas exceções, no geral as pessoas aprendem a repetir, mas não aprendem a pensar. Tenho notado, nas reações ao que escrevo e ao que colegas e conhecidos escrevem ou ao que dizemos em palestras e conferências, especialmente para pessoas de educação média, em diferentes lugares do Brasil, questionamentos chapados, de matriz ideológica, em alguns casos informados por orientações padronizadas de igrejas, em outros por orientações padronizadas de partidos, grupos de interesse partidário ou grupos ideológicos.

Questionamentos baseados em simplificações padronizadoras. Todo negro descende de escravos, o que não é verdade. Todo pardo é negro, ainda que negro de mestiçagem, o que é menos verdade ainda. Todo operário é pobre, o que não corresponde ao fato de que um número extenso de operários tem salários maiores do que muita gente da classe média.

A consciência social crítica dissolveu-se na pseudocrítica da recusa, da intolerância, do ódio. Uma cultura da vingança se disseminou. O pressuposto da resistência está em toda parte. Tudo se tornou, supostamente, resistência. A resistência como sinônimo de ser contra e não como sinônimo de ser crítico, isto é, de ser capaz de desvendar os aspectos ocultos e invisíveis de todos os campos sobre os quais pode incidir a pesquisa científica.

Nas ciências humanas isso é particularmente complicado. A pessoa comum não tem como compreender na superfície do visível causas e fatores profundos e ocultos dos acontecimentos sociais. Luta contra porque acha que sabe. Opõe-se ao conhecimento científico porque este esvazia criticamente o conhecimento ideológico.

O pensamento já não é a consciência social da práxis, do pensar para transformar, para emancipar, para estar junto com os outros. O pensamento pobre sobre ricos e pobres em vez do pensamento rico sobre pobres e ricos, sobre as contradições que nos dividem e nos afundam.
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José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Fronteira - A Degradação do Outro nos Confins do Humano” (Contexto).
http://gilvanmelo.blogspot.com.br/2017/11/jose-de-souza-martins-pensamento-pobre.html



 
A morada dos gatunos e desordeiros João do Rio
 – Se tens coragem, vai lá acima. Eu fico. Muito cuidadinho com a pele. Adeus! Essas palavras prudentes nos dizia um prudente cavalheiro, vendo passar as locomotivas, bem no sopé do Morro da Providência. A povoação ali é toda outra, uma porção de trabalhadores, de vagabundos por entre nuvens de poeira, cosendo-se às casas sórdidas e mal alinhadas. Faz um sol forte, um sol que parece mais quente derramado assim naquela poeira, naquelas pedras, naquela gente.
 – Mas vem cá, homem, escuta. É impossível ir lá acima sem uma informação.
 – Ora, os jornais têm dado, a polícia sabe. Neste Morro da Providência moram os mais terríveis malandros do mundo, com mulheres tremendas e assassinatos semanais.
 – Isso é literário demais!
 – Literário? Olha, só gostas dos romances do visconde Ponson ou do visconde Montepin, tens campo vasto para examinar de perto uma sociedade como a inventada por eles.
 – Muitas mortes?
 – Semanalmente.
 – Pois então subo.
 – Bom proveito.
Subimos o morro, por um íngreme caminho bordado de águas empoçadas, por onde vão negras maltrapilhas, moleques desnudos, tipos suspeitos, de lenço no pescoço. É impossível imaginar que ali, no centro da cidade, habite gente tão estranha e com uma vida tão própria.
À proporção que caminhamos, vamos admirando as habitações daqueles estranhos moradores. Desde o sopé da montanha as casas são todas feitas de bambu entrelaçado com barro, tendo por teto pedaços de folha de flandres seguros com pedras, são baiucas, são pocilgas, são indescritíveis. A maior parte não tem metro e meio de altura e consta apenas de quatro estacas formando um quadrilátero com o chão por soalho. Aí se acumulam famílias numerosas, crianças nuas, com o ventre enorme, mulheres amarelas e duvidosas quase despidas. As febres grassam em todo o morro. Não são só essas espécies de casas, lôbregas, sem luz, causa das moléstias. Ladeando o caminho grandes poças de águas estagnadas exalam um terrível mau cheiro. Ouvem-se a todo momento gritos, pragas, aparecem caras coléricas às portas, cachorros uivam.


De vez em quando, as baiucas vergonhosas desaparecem e o caminho é como uma garganta, entre as rochas. Encontramos um tipo alto, a carregar água, que se põe a tremer quando nos vê.
 – Que faz você?
 – Estou carregando água pra casa, sim senhor.
 – Casa construída por você mesmo?
 – Não, senhor, pago aluguel, tenho senhorio.
 – Senhorio por isso! no centro das cidades baiucas destas!
 – O morro divide-se em quatro partes. Cada uma tem o seu administrador. O lugar em que eu moro é sossegado. Só há rolo em família, os homens que batem nas mulheres.
 – E os capoeiras?
Ele olha para os lados receoso.
 – O senhor vá por ali.
Subimos mais, até encontrar um dos administradores dessa interessante vida, e ele, então, prestativo, leva-nos a todos os lados do morro informando-nos.
O morro da Providência sempre foi um lugar célebre de capoeiragem e assassinatos. Outrora, no lugar onde hoje existe o Cruzeiro, mandado fazer pela Santa Casa, bem no pico da montanha, é que se davam as lições de capoeiragem. Chamavam o china seco e a polícia monárquica nunca pôde acabar com o centro de horror.
Depois da Guerra de Canudos, os mais ousados facínoras voltaram a habitar o píncaro do morro denominado Favela, porque no reduto não há polícia que não seja derrotada.
Há no sítio entre as pardas amasiadas, as negras velhas parteiras e curandeiras, duas mulheres da vida virada. Essas criaturas são a causa dos maiores conflitos do morro. Aos domingos sobem a montanha praças de linha, fuzileiros navais, e é certo o rolo. Quem nos conta isso tem a cabeça partida em dous lugares. O crime entre esses criminosos neles apareceu com as mulheres. As pândegas começam com violão e acabam com a navalha.
 – Mas a polícia, que faz a polícia?
A polícia resolveu um interessante meio de acabar com tais cenas: fazer os facínoras "prestar serviços ao delegado", como dizem. Essa ingênua ideia deu em resultado serem aproveitados os valentões da pior espécie, que se tornaram terríveis e são agora os diretores dos conflitos. Falamos nesta ocasião com quatro, o Estêvão, com a cara cortada de gilvazes, o Pedro, o Septe, o João Paraguay.
Todos estão arrogantes, falam malfado às pessoas, espalhando as mãos, com um desbocado falar.
Prestam serviços ao delegado!
São célebres as mortes no beco do Melão, e lá em cima no china seco. Quando alguma esforçada autoridade manda dar um cerco, precipitam-se todos na mata e, como diz um da tropa, começa o tiro. Essas criaturas, entretanto, julgam-se superiores porque têm casa. Todos a que falamos respondem, apontando as fétidas baiucas.
 – Temos a nossa casa!
Descemos, já informados dessa infâmia em pleno centro da cidade, dessa grave lesão aos cofres e às leis da municipalidade, na construção dos horríveis casebres, quando o guia nos pergunta.
 – Quer ir à farsa?
Esse lugar, para o qual se desce por escarpas terríveis, é uma gruta que toma um grande ângulo do morro, e dá frente para a pedreira.
Aí vivem gatunos, assassinos, perseguidos pela polícia, vagabundos perigosos, que atracam à noite os trabalhadores e sustentam-se de aves roubadas, de burros e cabras que apanham a jeito.
 – V. Sa. dá licença, mas não é bom ir lá sem gente.
 – Por quê?
 – Porque recebem a tiro.
Deixamos o informante e descemos.
A gruta é profundíssima e escura. Quando lhe chegamos à boca, um grito soa e reboa em prolongado eco.
 – Olá! Que quer você? E salta um homem nu da cintura para cima, estrábico.  Não há nada mais fácil do que a mentira calma para sustar a raiva desses impulsivos.
Quando o homem chega junto a nós, perguntamos muito tranquilos pelo primeiro nome do assassino que nos vem à cabeça.
 – Não está! É servicinho?
 –  É.
 – Às ordens de V. Sa.
– Vocês estão aqui bem? O tremendo homem abre a dentuça num riso satisfeito.
 – É o que há!
Perguntamos se há muita gente na gruta. Àquela hora só ele e mais um pungista, com medo da Entre-Rios. De noite há sempre mais de vinte.
 – E vocês passam aqui dias?
 – Até meses. Já aqui deu à luz uma mulher e, quando se foi, a filha tinha meio ano!
E põe-se a falar, a contar falcatruas, a evidenciar sua destreza, como um burrantim que quer ser aceito. Fartos já dessa infâmia, perguntamos-lhe para concluir:
 – Como se chama
 – José Escapado.
 – Escapado?
 – Ah! isso é cá na nossa língua. Escapado porque nunca foi preso...
É ele ainda quem nos acompanha à volta, quem a troco de qualquer cousa nos ergue para trepar o atalho. 
Nós saímos da Favela perfeitamente assombrados. As cenas que secamente narramos são a expressão da verdade e relembram as mais furibundas páginas do rodapé-romance.
É possível que ali, à boca da Rua da América, no centro da cidade, as casas sejam de barro e folha de flandres, construídas por proprietários que delas retiram grossas rendas sem o mínimo escrúpulo? Será crível que, a dous passos da Rua do Ouvidor, haja uma Favela, reduto inexpugnável de desordeiros conhecidos e de gatunos temíveis?
Pois há, e, o que é mais, com alguns dos mais valentes prestando serviços à polícia.
Cá embaixo encontramos o amigo prudente.
 – Vivo?
 – Inteirinho.
 – Foste feliz, homem. Para compensar a graça celeste conta esse passeio no teu jornal.


 – Vocês estão aqui bem?
O tremendo homem abre a dentuça num riso satisfeito.
 – É o que há!
Perguntamos se há muita gente na gruta. Àquela hora só ele e mais um pungista, com medo da Entre-Rios. De noite há sempre mais de vinte.
 – E vocês passam aqui dias?
 – Até meses. Já aqui deu à luz uma mulher e, quando se foi, a filha tinha meio ano!
E põe-se a falar, a contar falcatruas, a evidenciar sua destreza, como um burrantim que quer ser aceito. Fartos já dessa infâmia, perguntamos-lhe para concluir:
 – Como se chama
 – José Escapado.
 – Escapado?
 – Ah! isso é cá na nossa língua. Escapado porque nunca foi preso...
É ele ainda quem nos acompanha à volta, quem a troco de qualquer cousa nos ergue para trepar o atalho. 
Nós saímos da Favela perfeitamente assombrados. As cenas que secamente narramos são a expressão da verdade e relembram as mais furibundas páginas do rodapé-romance.
É possível que ali, à boca da Rua da América, no centro da cidade, as casas sejam de barro e folha de flandres, construídas por proprietários que delas retiram grossas rendas sem o mínimo escrúpulo? Será crível que, a dous passos da Rua do Ouvidor, haja uma Favela, reduto inexpugnável de desordeiros conhecidos e de gatunos temíveis?
Pois há, e, o que é mais, com alguns dos mais valentes prestando serviços à polícia.
Cá embaixo encontramos o amigo prudente.
 – Vivo?
 – Inteirinho.
 – Foste feliz, homem. Para compensar a graça celeste conta esse passeio no teu jornal.
Terá o público a pálida notícia desses assombros, o ilustre Prefeito naturalmente providenciará para mandar demolir essas vergonhas de baiucas, causa de mortes e de vergonhas nossas, e é bem possível que, falando um diário de tantos gatunos e de tantos capoeiras, fique despeitado o delegado com a coragem, e a polícia tome providências...





Referências

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/6c/1d/cd/6c1dcd73d2ce21f6473eca9045f9608c.jpg
file:///D:/Usu%C3%A1rio/Pictures/26910-115127-1-PB.pdf
http://gilvanmelo.blogspot.com.br/2017/11/jose-de-souza-martins-pensamento-pobre.html

https://pt.scribd.com/document/357621615/A-Morada-Dos-Gatunos-e-Desordeiros