Eu sabia que você um dia Me procuraria em busca de paz Muito remorso, muita saudade Mas afinal o que é que lhe traz? A mulher quando é moça e bonita Nunca acredita poder tropeçar Quando os espelhos, lhe dão conselhos É que procuram em quem se agarrar E você pra mim foi uma delas Que no tempo em que eram belas Viam tudo diferente do que é Agora que não mais encanta Procura imitar a planta As plantas que morrem de pé E eu lhe agradeço por de mim ter se lembrado Entre tantos desgraçados que em sua vida passou Homem que é homem faz qual o cedro Que perfuma o machado que o derrubouE como homenagem visual, uma charge do próprio cronista-inspiração: 🔗 kimcartunista.com.br – Veríssimo por Kim
Mundo em Mutação
Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 4 de abril de 2025
Blah Blah Blah Blah
COMUNICADOS: COMEÇOS E FINS
quarta-feira, 2 de abril de 2025
A Campanha de Vacinação contra a Influenza, vírus causador da gripe, começa em Juiz de Fora na próxima segunda-feira (7).
DO BALANÇO DA INFÂNCIA AO FERRO DA MEMÓRIA
terça-feira, 1 de abril de 2025
Um Inimigo do Povo e Calabar: Censura, Poder e Verdade no Teatro
Noite, sala de estar da residência do médico. O ambiente é sóbrio, embora bem-arranjado e mobiliado. Na parede à direita, há duas portas: a mais distante conduz à antecâmara e a mais próxima, ao gabinete do médico.
Na parede oposta, junto à porta que dá para a antecâmara, há outra porta que leva aos aposentos íntimos da família, no andar superior. No meio dessa parede, está a estufa ladrilhada e, mais ao primeiro plano, um sofá encimado por um espelho. À frente do sofá, há uma mesa ovalada sobre um tapete. Acima da mesa, pende uma lâmpada acesa, coberta por uma cúpula.
No plano de fundo, vê-se uma porta aberta que leva à sala de jantar. Lá dentro, entrevê-se a mesa posta e a lâmpada acesa.
Billing está sentado à mesa, com um guardanapo sobre o colo. Junto à mesa, a senhora Stockmann lhe estende uma bandeja com uma grande peça de carne assada. Os demais lugares à mesa estão vazios, e as louças e talheres em desalinho indicam que a refeição chegou ao fim.
Um Inimigo do Povo
Peça em cinco atos, 1882
Henrik Ibsen
segunda-feira, 31 de março de 2025
Memórias afetivas trazidas e traídas
Neto de presidente da ditadura não se defende em denúncia de trama golpista
Dos 34 denunciados pela PGR por tentativa de golpe de Estado, ele é o único sem data marcada para julgamento no STF. Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho • Arquivo - Reprodução/X/realpfigueiredo
Isabella Cavalcante - CNN, Brasília
27/03/2025 às 08:47 | Atualizado 27/03/2025 às 08:47
Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, empresário e neto de João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura militar, ainda não apresentou sua defesa contra a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) a respeito da suposta organização de golpe de Estado. A denúncia contra outros oito citados no caso, incluindo Jair Bolsonaro (PL), foi aceita na quarta-feira (26) pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Documento da Secretaria Judiciária notou que, até a última sexta-feira (21), Paulo Figueiredo não havia se manifestado. Desde então, nenhum pronunciamento dele foi incluído no processo da denúncia da PGR.
Apesar disso, ele poderá se manifestar em outro momento. Dos 34 denunciados pela procuradoria, ele é o único sem data de julgamento no STF e está sozinho no núcleo 5 da denúncia.
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Paulo mora nos Estados Unidos e foi notificado por um edital, o que é necessário quando a Justiça não consegue contatar uma parte do processo.
Ele participou da programação da rádio Jovem Pan, mas foi afastado em 2021 e depois demitido, quando já era alvo de investigação por disseminar informações falsas.
Play VideoOs outros 33 denunciados foram divididos em quatro núcleos:
- Crucial para a organização - que é o de Bolsonaro;
- Gerenciamento de ações - com o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Silvinei Vasques;
- Militares - com agente da Polícia Federal (PF) e coronéis do Exército;
- Disseminação de desinformação - com ex-membro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e outros militares.
STF (Supremo Tribunal Federal) ------------- Luar do Sertão - Gravação original de 1914
Canal do Amil
14 de dez. de 2019
Interpretação de Eduardo das Neves e o coro que o acompanhou na antiga gravadora Odeon.
A autoria única desta música, defendida com veemência por Catulo da Paixão Cearense, sempre foi contestada por João Teixeira Guimarães, mais conhecido como João Pernambuco.
João Pernambuco reclamava a coautoria, pois dizia que Catulo havia usado a melodia de "Meu engenho é do Humaitá", que era sua, para compor "Luar do Sertão". A questão nunca foi pacificada, mas hoje já se credita a coautoria dessa canção a João Pernambuco.
Vale Tudo - Tim Maia
Vale, vale tudo
Vale, vale tudo
Vale o que vier
Vale o que quiser
Só não vale
Dançar homem com homem
Nem mulher com mulher
O resto vale
Vale, vale tudo
Vale, vale tudo
Vale o que vier
Vale o que quiser
Só não vale
Dançar homem com homem
Nem mulher com mulher
O resto vale
Vale, vale tudo
Vale, vale tudo
Vale o que vier
Vale o que quiser
Só não vale
Dançar homem com homem
Personagens históricos mostram por que a política não saiu do ambiente militar, mesmo depois de seis décadas do golpe que depôs João Goulart, em 31 de março de 1964.
Tanque e soldados na frente do Congresso. Reflexos de 1964 são percebidos na tentativa de golpe de 2022 - (crédito: Arquivo público do DF).
"(No 8 de Janeiro) o Exército estava pela legalidade. A não ser os que estavam no governo, como agora se fala das articulações na tentativa de golpe de Estado..."Saiba Mais
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O golpe foi militar
O governo foi militar
Falta do que pensar
Jânio de Freitas - Jornalista
Assista à transmissão completa aqui.
Sístole e Diástole
- A Monarquia acabou com as guerras, elevando generais e almirantes a barões, duques e viscondes.
- A República Velha elevou o moral da cúpula de generais a marechais.
- O Estado Novo encerrou o movimento tenentista, promovendo tenentes a capitães.
- A democratização pós-2ª Guerra Mundial elevou os pracinhas da Itália a heróis nacionais.
- A Constituição Cidadã de 1988 continua a nos guiar.
Liberdade
Dona Ivone Lara
Liberdade desfrutei
Conheci quando na minha mocidade
A ternura de um amor sem falsidade
E confiante sempre na felicidade
E eu cantava, sentia tudo que sonhei
Mas depois surpreendeu-me a solidão
Foi o fim da ilusão
E agora esta desilusão
Existe uma lição que vive em mim
Tudo que é feliz não tem direito a eternidade
Porque sempre chega a vez
De entrar em cena, a saudade
Às sombras desta recordação
Um gesto de perdão que eu não fiz
O remorso traz aquela triste melodia
Que me faz infeliz
Composição: Délcio Carvalho / Dona Ivone Lara.
Luar do sertão Canção de Chitãozinho & Xororó ‧ 1996 LetrasOuvirOutras gravações Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Oh, que saudade do luar da minha terra Lá na serra, branquejando folhas secas pelo chão Esse luar, lá da cidade, tão escuro Não tem aquela saudade do luar lá do sertão Se a lua nasce por detrás da verde mata Mais parece um sol de prata, prateando a solidão E a gente pega na viola que ponteia E a canção e a lua cheia a nos nascer do coração Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Coisa mais bela nesse mundo não existe Do que ouvir um galo triste, no sertão se faz luar Parece até que a alma da Lua é quem descansa Escondida na garganta desse galo a soluçar Ah, quem me dera eu morresse lá na serra Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez Ser enterrado numa grota pequenina Onde, à tarde, a sururina chora a sua viuvez Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Não há, oh, gente, oh, não Luar como esse do sertão Fonte: Musixmatch Compositores: Ricardo Lunardi / Catulo Da Paixão Cearense Letra de Luar do sertão _____________________________________________________________________________________________________ A telenovela está em crise e vai acabar ou o tradicional gênero ainda tem fôlego? Fracassos em tramas originais como "Mania de você", investimento em reprises e remakes de sucessos do passado como "Vale tudo" e o êxito de produções em novo formato para o streaming como "Beleza fatal" acendem debate sobre o futuro da novela Início Diversão e Arte O futuro das telenovelas - (crédito: kleber sasless)x O futuro das telenovelas - (crédito: kleber sasless) Se você perguntar a um estrangeiro quais são as referências que ele tem do Brasil, a resposta passará por três símbolos: carnaval, futebol e novela. Essa última, há mais de 60 anos faz parte dos hábitos dos brasileiros, sendo considerada o produto de maior audiência e repercussão da televisão, não somente no consumo interno, mas também no mercado internacional. Paixão avassaladora, os folhetins criados pelo que o produtor Daniel Filho denominou de "circo eletrônico" eram capazes de reunir famílias na frente da tevê até mesmo na noite de Natal — como ocorreu quando a vilã Odete Roitman, de Vale tudo, foi assassinada em 24 de dezembro de 1988 — e abastecer discussões acaloradas em salões de beleza, mesas de bar e, agora, na internet. Com a popularização das redes sociais e do streaming — frutos diretos dos tempos modernos —, porém, o gênero tem passado por transformações que colocam em xeque a sua popularidade. Clássico atemporal, "Vale tudo" retorna atual nesta segunda-feira (31/3) No passado, títulos como Vale tudo — que retorna, nesta segunda-feira (31/3), 37 anos depois, como remake —, A próxima vítima (1995) e Avenida Brasil (2012) não somente pararam o Brasil nas exibições de seus últimos capítulos, como percorreram o mundo, levando o nome e a cultura do nosso país para territórios diversos e fazendo com que a nossa teledramaturgia se tornasse um modelo a ser seguido. Regina Duarte e Glória Pires em Vale Tudo 1988 Regina Duarte e Gloria Pires em cena de "Vale tudo", em 1988 (foto: Bazilio Calazans/Memória/Globo) Cheiro de naftalina No entanto, após a pandemia, o público passou a rejeitar os novos títulos produzidos pela tevê aberta — em especial pela Globo. Não por acaso, o canal aposta não somente em reprises de obras que fizeram grande sucesso — como Tieta, de 1989, em cartaz no programa Vale a pena ver de novo, que será substituída por A viagem, de 1994 —, mas também em remakes — como Pantanal, da extinta Manchete; e Renascer, da própria Globo. A primeira trouxe resultados positivos, mas o efeito não foi o mesmo com a segunda. Agora, com o fracasso registrado em Mania de você — trama original que sucedeu Renascer e antecedeu Vale tudo —, a releitura daquela que a opinião especializada chama de "a novela das novelas" divide opiniões: a solução para a crise no gênero está no investimento em histórias já contadas? Análise: por que “Mania de você” se despede sem deixar saudades Para Mauro Alencar, consultor e doutor em Teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP), raras são as produções que realmente encantaram. "Uma produção audiovisual é o retrato fidedigno de um tempo, de um espaço, de uma construção em conjunto entre autor, diretor, produção e, meu Deus!, dos atores! É a atriz, o ator quem irão nos encantar e nos seduzir para acompanhar a trama e guardá-la em nosso subconsciente", avalia o autor do livro A Hollywood Brasileira — Panorama da telenovela no Brasil (Senac Rio, 176 páginas). Globo está preparando um filme de “A viagem” Mas, de acordo com Amauri Soares, diretor-executivo dos Estúdios Globo, da TV Globo e das Afiliadas, recontar histórias faz parte de todo o mundo: "As histórias clássicas são aquelas que resistem ao tempo. Vale tudo é um clássico da telenovela. Em 1988, teve a primeira versão; nós estamos fazendo uma nova versão hoje; e eu imagino que, daqui a 30 anos, uma nova geração de profissionais da televisão fará uma nova versão. Porque faz parte da contação da história". Autora escolhida para adaptar Vale tudo — uma obra de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères—, Manuela Dias endossa a teoria. "As histórias que não foram recontadas nós nem conhecemos. Os remakes provocam encontros de gerações, de pessoas que viram com pessoas que não viram (a novela), e fazem a gente se repensar como sociedade", defende a criadora da exitosa antologia Justiça e da popular novela Amor de mãe. Cena da novela Pantanal Juma ( Alanis Guillen ) Em 2002, a Globo fez o exitoso remake de "Pantanal", um grande sucesso da TV Manchete de 1990 (foto: João Miguel Junior/ TV Globo) Geração TikTok Mauro Alencar explica que, "em plena Quarta Revolução Industrial, em que reina a cultura da virtualidade real", não dá mais para considerar a telenovela como uma paixão nacional. "Em uma era em que a cultura está fragmentada e diluída (o tal mundo líquido moderno na compreensão precisa do sociólogo Zygmunt Bauman), é praticamente impossível que você tenha um produto cultural como paixão nacional. As paixões é que se pulverizaram também, e cada grupo vai encontrando o que melhor completa os seus desejos conscientes ou não, mas tendo a teledramaturgia como grande catalisadora", ressalta o especialista. Se na tevê aberta a novela parece saturada, o mesmo não se pode dizer do streaming. Escrita pelo estreante no gênero Raphael Montes, de 34 anos, com supervisão do veterano Silvio de Abreu, 82, a original Beleza fatal uniu inovação e tradição, marcando a entrada triunfal da gigante Max (por meio da parceria Warner Bros. Discovery) no segmento, com resultados bem-sucedidos não apenas na audiência como também na popularidade, — com o frisson pelo último capítulo que não se via desde Avenida Brasil. Fãs verão desfecho de “Beleza fatal” ao vivo na sexta-feira (21/3) Na avaliação da vice-presidente de Conteúdo da WBD no Brasil, Mônica Pimentel, o melodrama — essência de um bom folhetim — tem potencial duradouro, mas deve ser reimaginado para o público atual. "O melodrama, por sua essência, sempre terá potencial para se conectar com o público, devido às suas características fundamentais de emoção e identificação. No entanto, para que esse gênero se mantenha relevante, é crucial adaptá-lo às novas realidades contemporâneas", afirma a executiva, que tem na manga, totalmente produzida, a releitura de Dona Beja, exibida originalmente pela Manchete em 1986, ainda sem data para estrear. Ambos os títulos possuem o mesmo formato: apenas 40 capítulos. Raphael Montes reforça que, há alguns anos, fala-se que é o fim da novela, mas o brasileiro ainda quer assisti-la — e comentá-la. "Acredito em uma mudança na maneira de fazer e de assistir, no tamanho dos capítulos, e no sentido de que os autores devem olhar para o público atual, já que estamos em uma geração TikTok", argumenta o escritor. "Eu percebo isso pelo que chega a mim por mensagens nas redes sociais e também por dados que me foram passados. Mas é importante frisar que o padrão de audiência do passado não é o mesmo. Não dá mais para comparar com os tempos áureos. Mas, sim, Beleza fatal provou que o brasileiro ainda quer novela", acrescenta. Camila Pitanga tem retorno triunfal às telenovelas com Beleza fatal A vilã carismática Lola (Camila Pitanga), de "Beleza fatal", se tornou a queridinha das redes sociais (foto: Divulgação/Max) "O gênero ou formato (a depender da corrente teórica) telenovela vem falhando na falta de sintonia com o consumidor desta Quarta Revolução Industrial. Daí o sucesso extraordinário de Beleza fatal. A produção, porém, seria uma novela para ser exibida às 22h ou 23h e, mesmo assim, com cortes nas cenas mais ousadas sexualmente. Mas acredito que se fosse bem trabalhada para a sua exibição e em uma empresa organizada e com tradição em telenovela, sim, poderia fazer sucesso, talvez não tão alarmante como no streaming", salienta Mauro Alencar. Essa tendência não é ignorada pela tevê aberta. A Globo, por exemplo, por meio da plataforma Globoplay, que nasceu para disponibilizar seu acervo histórico ao estilo Netflix, também investe no formato para novas novelas — antes mesmo das gigantes internacionais, inclusive, com títulos bem-sucedidos como Verdades secretas II (2021) e Todas as flores (2022). Ainda em 2025, a plataforma lançará Guerreiros do sol, outra produção para o streaming totalmente gravada. Sol (Sheron menezzes) e Ben (Samuel de Assis), protagonistas de Vai na fé A original "Vai na fé" foi o último grande sucesso da Globo (foto: Globo/Divulgação) Para mais 100 anos O diretor-executivo da Globo, Amauri Soares, pontua que a telenovela é um gênero tradicional, que nasceu no rádio, mas tem todas as características do conteúdo digital do presente e do futuro. "É um gênero que se reinventou e que se mostra muito moderno. O nosso dever é encontrar as histórias adequadas para o dia de hoje, que caibam nesse formato, mas eu não tenho dúvida que (o gênero) está aí para mais 100 anos", aposta. Rosane Svartman, que escreveu o livro A telenovela e o futuro da televisão brasileira (Cobogó, 248 páginas), como desdobramento de uma tese de doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF), também defende a longevidade do gênero. "Não há crise, mas oportunidade. Tanto que o melodrama migrou para o streaming com muito êxito. É recente e transformador", conclui a autora de Vai na fé (2023), considerado o último grande sucesso do gênero na tevê aberta, e de Dona de mim, aposta da Globo para o horário das 19h a partir de abril. Entrevista | Mauro Alencar Consultor e doutor em Teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de A Hollywood Brasileira — Panorama da telenovela no Brasil (Senac Rio, 176 páginas) e da biografia Susana Vieira: Senhora do meu destino Para começar, a telenovela ainda pode ser considerada uma paixão nacional? Do ponto de vista da formação social do Brasil, incluindo a criação de uma identidade nacional e do inconsciente coletivo, sim. O que quero dizer com isso: a telenovela faz parte do constructo nacional como o carnaval e o futebol (independentemente dos resultados, por exemplo, da seleção brasileira). Tomo, portanto, por base, os conceitos de antropologia cultural e sociologia. Particularmente, a primeira ciência, pois por meio da telenovela compreendemos como se formou a cultura do Brasil e da América Latina como um todo: os hábitos, costumes, valores, religião, culinária e a História de maneira mais ampla. Não por acaso, se a Europa, mais especificamente, a Inglaterra respira teatro, o Brasil respira telenovela, pois a telenovela é uma invenção da América Latina. Entretanto, em termos de consumo dentro da indústria cultural e do entretenimento, não mais, pelo fato de que estamos em plena era da Quarta Revolução Industrial onde reina a cultura da virtualidade real. Desse modo, ao mesmo tempo em que assistimos cada vez mais a integração da comunicação eletrônica, o avanço das redes sociais, das comunidades virtuais, do mundo globalizado, enfim, observamos o fim da audiência de massa. E era essa audiência que fazia da telenovela uma “paixão nacional”. Lembremos que hoje o mundo da teledramaturgia (novelas e séries) está ao nosso alcance, com qualidade e variedade. Também não existe mais a idolatria aos atores como se via em décadas passadas, nem mesmo acompanhamos a trajetória e o estilo dos autores de telenovela. Relação arte – plateia/ público/ audiência que vinha dos tempos da radionovela nas décadas de 1940 e 1950 e que migraram com muito mais força para a televisão. Do mesmo modo, os diretores também não são mais endeusados como víamos em outros tempos. Isso não quer dizer que a telenovela deixou de ser importante para a economia criativa. Muito pelo contrário, ela segue como um dos principais produtos culturais, mesmo que não tenha a relevância psicossocial de outrora. Haja vista o sucesso explosivo de Beleza fatal no streaming. Uma grata e necessária surpresa! Sintetizando: numa era onde a cultura está fragmentada e diluída (o tal mundo líquido moderno na compreensão precisa do sociólogo Zygmunt Bauman), é praticamente impossível que você tenha um produto cultural como “paixão nacional”, ainda que tenha uma abrangência extraordinária tanto na televisão aberta quanto em plataformas digitais. As paixões é que se pulverizaram também e cada grupo vai encontrando o que melhor completa os seus desejos conscientes ou não, mas tendo a teledramaturgia como grande catalisadora. Ao longo dos últimos 10 anos, poucas telenovelas mantiveram o sucesso que o gênero costumava manter. Após Avenida Brasil (2012), algumas produções — como Amor à vida (2013), Império (2014), Totalmente demais (2015), Eta mundo bom (2016) e A força do querer (2017) — se destacaram na década passada, mas, de 2020 para cá, tivemos uma grande queda, com apenas Pantanal (2022) — um remake —, reavivando o horário das 21h após a pandemia, e uma às 19h, Vai na fé (2023), que, até então, é considerada a melhor obra da década. Na sua opinião, onde é que o gênero telenovela vem falhando tanto? Você acaba de confirmar o que eu respondi acima! E a última grande união do público com a telenovela foi em 2012, com Avenida Brasil. O gênero ou formato (a depender da corrente teórica) telenovela vem falhando na falta de sintonia com o consumidor desta Quarta Revolução Industrial. Daí o sucesso extraordinário da produtora Coração da Selva com Beleza fatal exibida pela Max. Beleza fatal chegou, como uma grande aposta da Max, mostrando que ainda é possível fazer um novelão clássico. Mas, será que todo esse sucesso seria possível na tevê aberta, se ela fosse adaptada para o horário das 21h? Certamente, Beleza fatal seria uma novela para ser exibida às 22h ou 23he, mesmo assim, com cortes nas cenas mais ousadas sexualmente. Mas acredito que se fosse bem trabalhada para a sua exibição e numa empresa organizada e com tradição em telenovela, sim, poderia fazer sucesso, talveznão tão alarmante como no streaming. De qualquer maneira, acompanho com muito entusiasmo a interação de nossas novelas (e, até o momento, Beleza fatal está em primeiríssimo lugar) com as redes sociais. Vivemos o que já havia sido preconizado por Jesús Martín Barbero, o saudoso mestre colombiano sobre os meios e suas mediações. Observo que Beleza fatal é o produto mais bem acabado de nossa nova dinâmica cultural. Você acredita que o streaming, especialmente o Globoplay, que traz praticamente todas as novelas já produzidas pela Globo a um clique, prejudicou o que se produz para o gênero atualmente? O que observo, escuto e leio é que essa estratégia (quem iria saber?) abriu um abismo entre passado e presente, pois as décadas de 1970, 80 e 90 foram a “época de ouro da telenovela brasileira”. Qual é a sua opinião sobre os remakes? Essa adaptação de Vale tudo é um tiro no pé ou um grande acerto no alvo? Particularmente não aprecio remakes de telenovela ou filmes pelos mais diversos motivos. Raras são as produções que realmente encantaram como Mulheres de areia, A viagem, A gata comeu, Pantanal (Globo) e Éramos seis (SBT). Uma produção audiovisual é o retrato fidedigno de um tempo, de um espaço, de uma construção em conjunto entre autor, diretor, produção e, meu Deus!, dos atores! É a atriz, o ator quem irá nos encantar e nos seduzir para acompanhar a trama e guardá-la em nosso subconsciente. Sobre Vale tudo, como diria minha primeira mestra Helena Silveira (pioneira jornalista e cronista da TV), “ainda é cedo para deitar cartas na mesa”. Aguardemos a novela começar... O que o público noveleiro 40+, de classe média, espera das novelas atuais? E como fazer para resgatar esse público? Acredito que devemos buscar histórias, temas, personagens que dialoguem com a faixa etária muito bem observada por você. E novelas onde a produção fique atenta à época em que vivemos — tanto na forma quanto no conteúdo — aos desejos do público consumidor. Você tem o produto, a mídia para exibi-lo e público–alvo. Compreender e procurar preencher esse processo da melhor maneira possível é o dever de executivos e produtores. E como fisgar a turma mais jovem, acostumada com a instantaneidade das mídias digitais? Beleza fatal fez isso, mas outra poderá conseguir, mesmo no streaming? Beleza fatal já é um ícone dos novos tempos. O importante é que, dentro do mesmo processo de produção, não fique um hiato muito longo entre uma produção e outra e que procure se encontrar temas que interessem a esse grupo mais jovem dentro da dinâmica existencial em que eles vivem. O desafio dessa nossa Era é grande, mas fascinante. Saiba Mais Diversão e Arte O forte desabafo de Zé Neto sobre depressão e afastamento dos palcos Diversão e Arte Bruno Mars prepara novo álbum e promete ser o maior sucesso Diversão e Arte Como está a atual relação de Chappell Roan com os fãs Diversão e Arte Odete Roitman vence The Masked Singer; saiba quem era o artista na fantasia Patrick Selvatti + postado em 31/03/2025 06:40 _____________________________________________________________________________________________________ Sérgio Abranches: Como se julga um golpe inacabado? "Espero que a maioria do Congresso aprenda com o julgamento e não aprove qualquer anistia que proteja os golpistas de hoje" Início Política 08/08/2017. Credito: Minervino Junior/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. Mercado de cursos juridicos. Estatua da Justiça na Universidade Catolica de Brasilia. - (crédito: Minervino Junior/CB/D.A Press)x 08/08/2017. Credito: Minervino Junior/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. Mercado de cursos juridicos. Estatua da Justiça na Universidade Catolica de Brasilia. - (crédito: Minervino Junior/CB/D.A Press) O Brasil está aprendendo a julgar e punir os responsáveis pelo comando, planejamento, financiamento e execução de um golpe inacabado. Golpes acabados não se julgam. Só os crimes da ditadura decorrente, com a volta da democracia. Os crimes previstos na Lei 14.197 são tentar abolir o Estado democrático de direito e tentar depor o governo legitimamente constituído, por meio de violência ou grave ameaça. Tentativa de golpe é um golpe interrompido por razões estranhas à vontade dos agentes que dele participaram. Logo, um golpe inacabado. Daí não procede o argumento do réu Jair Bolsonaro de que não houve decreto assinado e tropas nas ruas. São crimes diferentes, praticados pela mesma associação golpista. Um presidente em exercício pode abolir o Estado democrático de direito com um ou mais atos autocráticos. É o que Viktor Orbán fez na Hungria, Putin, na Rússia, Trump está fazendo nos Estados Unidos e Netanyahu, em Israel. Este acaba de aprovar uma lei que submete o Judiciário ao controle dos políticos. Bolsonaro e seus parceiros no Congresso tentaram fazer o mesmo. Um ex-presidente que não tenha conseguido impor a autocracia durante o seu mandato pode conspirar para depor o governo legitimamente constituído, por meio de um golpe de Estado. A combinação entre o desmanche do Estado democrático de direito e o golpe cria o crime híbrido. Por isso, o grupo liderado por Bolsonaro é réu pelos dois crimes, praticados em sequência. É o que está dito na denúncia ao "grupo crucial", de comando e planejamento, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e aceito por unanimidade pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal. O PGR e o relator, ministro Alexandre de Moraes, identificaram o início das ações a partir de 29 de junho de 2021. Em capítulo de livro ainda inédito, no qual procuro analisar a anatomia e a dinâmica de um golpe inacabado, reconstruo a maquinação com base apenas em declarações públicas de Bolsonaro, seus filhos e vários dos integrantes da, ora denominada, organização criminosa. Assinalo que as insinuações sobre a necessidade de abolir os estatutos do Estado democrático de direito começam poucos meses após a posse de Bolsonaro, em 2019, e vão até o trágico desfecho em janeiro de 8/1/23. As ações violentas contra as sedes dos Três Poderes não conseguiram nem a decretação de uma GLO, garantia da lei e da ordem, pelo já presidente Lula, nem um levante de tropas. O golpe foi interrompido. Essa longa trajetória da trama golpista coincide com o que disse a ministra Cármen Lúcia em seu voto, "não se faz um golpe em um dia", eu acrescentaria, nem em um mês, ou mesmo, em um ano. Também guarda paralelo com a minuciosa reconstrução do golpe de 1964 por Heloisa Starling, em seu excelente livro A máquina do golpe. A mentalidade autoritária e golpista que Bolsonaro sempre mostrou publicamente, nos seus pronunciamentos como deputado e nas suas declarações e ações como presidente, jamais se ajustou aos limites constitucionais do estado democrático de direito, que ele minimiza em "quatro linhas". Estamos aprendendo agora como se julga um golpe, em um país cuja biografia pode ser recontada pelos golpes que sofreu. É a primeira vez que se tem uma lei que tipifica os crimes de tentativa de golpe, paradoxalmente promulgada pelo próprio Bolsonaro, quando esteve no poder. Mas a lei não é dele. É do Congresso Nacional, instituição que perde a vida ou a substância nos regimes autoritários. É o primeiro julgamento de um golpe inacabado. É, igualmente, inédito que generais e militares de alta patente sejam julgados pela justiça civil por crimes políticos. E talvez venha a ser também inaugural o julgamento desses militares pelo Superior Tribunal Militar, que pode retirar-lhes a patente por "indignidade para o oficialato". A corporação sempre teve tutela autônoma sobre os seus e muitas vezes teve a tutela sobre o poder civil, via artigo 142 da Constituição. Todas as constituições tiveram o seu 142. Este aprendizado não é trivial. Ele se completa com a memória do golpe cruento que levou 21 anos para acabar. Lembrar, para não repetir. Julgar e punir para que outros não tentem o mesmo. Não julgamos os crimes da ditadura, como o Chile e a Argentina. Espero que a maioria do Congresso aprenda com o julgamento e não aprove qualquer anistia que proteja os golpistas de hoje. Se o fizer, estaria construindo o caminho para novas tentativas de golpe. A biografia do Brasil já é maculada por golpes e sua contínua impunidade. Saiba Mais Política Tentativa de golpe: 542 fizeram acordos com a PGR; 246 não aceitaram propostas Política Ato contra a anistia em São Paulo reúne 18,3 mil pessoas, calcula USP Política Manifestantes em BH pedem prisão de Bolsonaro em ato contra anistia Política Manifestantes fazem ato no Eixão contra a anistia dos presos pelo 8/1 Política Moraes concede prisão domiciliar a condenado no 8 de Janeiro que está com câncer Política Parte II — Anarquia militar mexe com governo, diretas e sucessão Tags análise política Sérgio Abranches SA Sérgio Abranches + postado em 31/03/2025 03:50 _____________________________________________________________________________________________________ ----------- Professora da Unicamp e pesquisadora, Ana Penido defende a reforma das Forças Armadas Instituto Conhecimento Liberta 9 de dez. de 2024 Professora da Unicamp e pesquisadora, Ana Penido defende a reforma das Forças Armadas Veja mais no Portal ICL Notícias: iclnoticias.com.br ----------- ANA PENIDO - CIENTISTA POLÍTICA EM DETALHES 31/03/ 10:34 O NÚCLEO DOS MILITARES: AS PECULIARIDADES DO GRUPO DE DENUNCIADOS PELA PGR "Comandantes São extremamente punitivos." _____________________________________________________________________________________________________ --------- questões ideológicas Quando os socialistas fazem o “L” Em vinte anos, o Psol foi de oposição intransigente a base fiel do governo Lula. Agora, vai reescrever seu programa partidário para se adaptar aos novos tempos Gabriela Sá Pessoa, de São Paulo Revista Piauí - UOL Quando os socialistas fazem o “L” - revista | 31 mar 2025_09h40 Era junho de 2004 e o governo Lula, iniciado havia pouco mais de um ano, acelerava “a rota para o precipício”. Assim dizia (ainda diz) o quinto parágrafo do programa do Partido Socialismo e Liberdade, o Psol. Aprovado em uma convenção com cerca de setecentos militantes, em pleno domingo, no Minas Brasília Tênis Clube, o texto inaugurou “a verdadeira oposição ao governo Lula”, nas palavras do então deputado federal Babá. O mundo só recebeu a notícia no dia seguinte, quando, postados em frente a um pôster de Che Guevara, no Senado, um trio de parlamentares – Luciana Genro (RS), Heloísa Helena (AL) e, claro, Babá (PA) – anunciou a criação do partido. Os três, mais o então deputado federal João Fontes (SE), haviam sido expulsos do PT meses antes por terem votado contra a reforma da previdência encampada por Lula. O governo, contrariando quem esperava gulags e expropriações, vinha seguindo a cartilha da austeridade preconizada pelos economistas liberais. Cortou gastos e podou aposentadorias. Por razões de disciplina partidária, e com aval do presidente, o PT defenestrou os parlamentares que se opuseram a essa agenda. A solução encontrada por eles foi fundar um novo partido, o 29º da democracia brasileira àquela altura. Demorou um ano até que coletassem o mínimo de 450 mil assinaturas exigido pelo Tribunal Superior Eleitoral. Pretendiam escolher o 10 como número de urna, mas, por questão de dias, perderam-no para o bispo Edir Macedo, que acabava de fundar seu Partido Municipalista Renovador – hoje Republicanos. O Psol se contentou com o 50. Ziraldo, simpático à causa, desenhou o Sol sorridente que até hoje serve de logotipo para o partido. “Renasceremos a cada dia como um Sol”, prometeu a então senadora Heloísa Helena, segundo registrou a Folha de S.Paulo. Nesses primeiros dias, Helena ainda se referia à agremiação como “o partido do Sol”. Em 2006, apelando ao eleitorado à esquerda de Lula, ela se candidatou a presidente e levou quase 7% dos votos, um percentual que a legenda, desde então, nunca esteve perto de igualar. Hoje, tendo completado vinte anos, o partido do Sol se vê em circunstâncias muito diferentes. Está mais próximo do PT do que jamais esteve e conta uma ministra na Esplanada – Sonia Guajajara, à frente do Ministério dos Povos Indígenas. Não sem brigas, o partido decidiu não lançar candidato a presidente em 2022, fato inédito em sua história, e aderiu prontamente à coalizão de Lula. Agora bambeia diante da possibilidade de assumir mais um ministério, já que corre em Brasília o rumor de que Guilherme Boulos, deputado federal e principal liderança do partido, assumirá a Secretaria-Geral da Presidência, hoje nas mãos de Márcio Macêdo (PT). Caso o faça, passará a despachar do quarto andar do Palácio do Planalto, um acima de Lula. O assunto é tabu. “A gente ainda está tentando entender se é uma possibilidade ou uma especulação”, disse Paula Coradi, presidente do Psol. Topar o cargo não será, segundo ela, uma contradição com os ideais do partido. “Tudo partiria de um diálogo para entender o nosso papel e quais seriam as expectativas em torno de uma presença maior nossa no governo.” Boulos não comenta. À piauí, disse apenas que compor a base do governo Lula é “raciocínio simples e ao mesmo tempo decisivo para nós”. O dilema talvez explique por que, pela primeira vez, o Psol fará agora uma revisão do programa partidário aprovado em 2004. A justificativa oficial é de que o texto precisa refletir os novos tempos. Muita coisa mudou, no mundo e na esquerda, nesses vinte anos. “Nosso programa fala da Alca [Área de Livre Comércio das Américas], que já foi derrotada há muito tempo”, disse Juliano Medeiros, que presidia o Psol até 2023 e está engajado nas discussões do novo programa. Outros anacronismos, como as críticas a Lula, ele defende que também sejam deletados do texto. “Por que vamos citar no programa do partido uma pessoa que nem é do nosso partido? Não faz sentido.” Programas partidários são uma exigência da Justiça Eleitoral e servem para que a legenda diga à sociedade a que veio. Ali estão as ideias que a inspiram, as propostas que defende, os objetivos que almeja. O cidadão que perscrutar as 5.836 palavras do programa do Psol saberá que o partido apregoa a reforma agrária, o confisco dos bens de corruptos e sonegadores, o combate ao racismo e à homofobia, a democratização dos meios de comunicação e, como horizonte final, a transição para o socialismo. Parte 1, item 3: “Rechaçar a conciliação de classes e apoiar as lutas dos trabalhadores.” Não está claro se, com a adesão à frente ampla capitaneada por Lula, a frase sobreviverá intacta no programa do Psol. As discussões sobre o novo texto começarão em abril e vão ser divididas em cinco eixos temáticos: socialismo do século XXI; democracia, direitos humanos e sociais; crise climática e transição ecológica; mundo do trabalho e modelo econômico; lutas sociais e políticas do nosso tempo. Assine nossa newsletter e-mail Avião - enviar formulário Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí Os dirigentes evitam falar de pautas específicas. “Estamos buscando entender o presente para gerar esperança para o futuro. A gente quer se afirmar enquanto partido da nova esquerda, um partido dinâmico, um partido que defende as lutas do nosso tempo”, desconversou Coradi, a presidente. O tesoureiro, Tiago Paraíba, diz que é preciso fazer um balanço dos últimos dez anos. Como sair da oposição para a base do governo sem perder a identidade?, ele indagou. “Não é uma equação fácil”, concluiu. Acapixaba Paula Coradi tem 39 anos e se filiou ao Psol em 2009. Como Juliano Medeiros, seu antecessor, é historiadora de formação. Também como ele, ascendeu à presidência do partido sem ter ocupado cargo público. É uma militante da máquina. Galgou espaço na Executiva Nacional do partido e foi eleita para o cargo máximo em outubro de 2023. Recebeu os votos de 67% dos 451 delegados que se reuniram no 8º Congresso Nacional do Psol, em Brasília. A vitória mais folgada até hoje, mas em ambiente inflamado: a certa altura, militantes de correntes adversárias trocaram socos. Coradi faz parte da Primavera Socialista, a maior tendência do Psol, que tem como integrante mais célebre o deputado federal Ivan Valente (SP). Junto com a Revolução Solidária, grupo de Boulos, eles formam o Psol Popular, aliança que vem conseguindo obter maioria nas disputas internas e advoga por uma proximidade maior com o governo Lula. Do lado oposto há correntes menores, à esquerda, cujos representantes mais vocais têm sido o casal de deputados Sâmia Bonfim (SP) e Glauber Braga (RJ). Grupos que andam se estranhando. A última crise, a maior de que se tem notícia, aconteceu em fevereiro, quando a liderança do Psol na Câmara demitiu o economista David Deccache de seu quadro de assessores. Inconformado, Deccache foi à imprensa e disse que estava sendo perseguido por criticar as políticas econômicas do governo Lula, o que, segundo ele, desagradava os chefes. Os deputados negaram: em nota pública, disseram que a demissão fora motivada não por discordâncias, “mas por ataques públicos do assessor [Decacche] a parlamentares e à presidente do Psol.” Braga apoiou o colega demitido – um profissional, em suas palavras, “brilhante”. Em uma live no Instagram, o deputado denunciou o que considerava “uma virada de chave por parte do campo majoritário” do partido. No final, parafraseou Lênin: “O que fazer? Se esgotou o [meu] tempo de presença no Psol?” Por ora, Braga continua filiado. Para os partidos de inspiração marxista, trata-se de uma encruzilhada tão velha quanto o próprio Marx. O quanto é possível se integrar a uma frente social-democrata sem perder de vista o socialismo? Em um artigo de dezembro de 2022, o historiador Valerio Arcary, que milita pelo Psol na corrente Resistência, adiantou o dilema que vinha pela frente. “A adesão ao governo condenaria o Psol a ser um satélite do PT. A definição como oposição de esquerda condenaria o Psol a uma solidão na marginalidade.” Os dois lados da disputa dizem defender o caminho do meio: apoiar o governo contra as investidas do bolsonarismo, sem abrir mão de suas próprias bandeiras. Discordam mesmo é no método. “Medidas de austeridade fortalecem a extrema direita. É papel do Psol fazer o enfrentamento dessas medidas, tensionando publicamente para garantir os direitos da maioria do povo”, disse Braga à piauí. Boulos deu parecer diferente: “Achar que esse é o momento adequado para colocar em pauta as diferenças na esquerda, ou situar o governo como adversário, é de uma miopia inacreditável.” Arevisão do programa partidário foi aprovada no mesmo congresso que elegeu Paula Coradi, e com votação igualmente expressiva. “A gente sentiu naquele momento que a consolidação de uma maioria de dois terços – que nunca tinha acontecido no Psol –, assim como a política de frente ampla, foram conquistas do nosso partido”, diz Juliano Medeiros, que também milita pela Primavera Socialista e pensa em sintonia com Boulos. “A gente não podia retroceder. Isso precisava estar documentado, no papel.” O objetivo, em linhas gerais, é cristalizar a nova visão dominante do partido, que se expandiu e fez concessões ao pragmatismo. Medeiros encarnou essa transformação. Presidiu o Psol por dois mandatos consecutivos, entre 2017 e 2023, período no qual o número de filiados praticamente dobrou, passando de 147 mil para 292 mil. O partido ainda sofre nas eleições majoritárias: não elegeu nenhum prefeito no ano passado e perdeu a única capital que governava, Belém, onde o mandatário sequer chegou ao segundo turno. No Congresso as coisas não vão mal. Embora não tenha senador, o partido dobrou a bancada na Câmara desde 2014. Conta hoje com treze deputados. Medeiros se filiou ao Psol em 2005, vindo do PT, numa história comum à dos integrantes da primeira geração do partido. Militava ao lado de Ivan Valente e o acompanhou quando o deputado resolveu abandonar as hostes petistas. “Lula havia sido eleito, e o desempenho do governo estava sendo frustrante para quem esperava mudanças um pouco mais profundas”, lembrou o ex-presidente do Psol. “A gota d’água para nós foi quando vieram à tona as denúncias de corrupção, como o Mensalão.” As acusações contra o PT deram ao Psol a oportunidade de empunhar a bandeira da moralidade, da qual nunca se desvencilhou totalmente. Quem melhor encarnou esse sentimento foi Heloísa Helena, primeira presidente do partido. Em 2006, a senadora chamou Lula de gângster e descreveu o PT como uma “organização criminosa capaz de roubar, matar, caluniar e liquidar qualquer um que passe pela frente ameaçando seu projeto de poder”. Palavras que hoje soam mal para os ex-colegas. “Ela, que vem de uma corrente programática, acabou virando uma pessoa-fígado”, diz Ivan Valente. Helena deixou o Psol em 2015, ano em que o partido, por força das circunstâncias, começou a calibrar o antipetismo. Dilma Rousseff iniciava o segundo mandato já nas cordas, emparedada por uma direita despudorada que emergira em 2013. O Psol cerrou fileiras com o governo e passou a buscar lideranças populares que desfizessem sua imagem de um partido de classe média. Lançou, com sucesso, as candidaturas de Marielle Franco e Talíria Petrone, ambas jovens negras eleitas vereadoras em 2016, no Rio de Janeiro e em Niterói, respectivamente. Pouco depois, Guilherme Boulos se filiou, trazendo consigo ativistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). A estratégia de popularização do partido foi encabeçada por Medeiros e Valente. “Eles representavam e ainda representam ideias de um partido mais arejado, mais aberto, mais amplo, que não pregue só pra convertido”, defendeu Boulos. “O que unia meu grupo ao grupo do Juliano e do Ivan Valente era a compreensão de que a gente precisava focar no enfrentamento à direita. Era preciso construir uma unidade dentro do campo progressista para lidar com o tempo difícil que estava se iniciando ali.” Quando Lula, fora da prisão, recuperou o direito de disputar eleições após uma decisão do STF, ele convidou Boulos e Medeiros para uma conversa na sede do Instituto Lula, em São Paulo. Segundo Medeiros se recorda, o petista serviu cachaça e comentou que estava pensando em ser candidato à presidência em 2022. “Ele, muito sedutor como é, tentou nos puxar para uma aliança”, contou Medeiros. “A gente disse: ‘Não, presidente. A gente tem muito respeito, o senhor é um homem fortíssimo, talvez o mais adequado para liderar a frente contra o Bolsonaro. Mas a gente precisa discutir mais coisas’”. Discutiram e se acertaram. O Psol não lançou candidato a presidente nem a governador em São Paulo naquele ano, fato que inflamou parte da militância, para quem se tratava de capitulação inaceitável. Recebeu, como contrapartida, apoio a Boulos na disputa pela prefeitura, em 2024. “Foi uma decisão não só correta, mas que nos custou menos do que poderia”, diz Medeiros. A seu ver, não fosse a aliança com Lula, o Psol teria se isolado de sua base. “A gente retrocederia dez anos de construção partidária, de abertura, para voltar a ser o Psol que fala com o gueto.” O grupo majoritário diz que o novo programa, além de excluir as análises conjunturais de 2004, servirá para posicionar o partido no novo mundo do trabalho. “Temos uma classe trabalhadora mais fragmentada, marcada pela ideologia do empreendedorismo”, disse Boulos. “O Psol precisa apostar num caminho de disputa digital, de guerra cultural, de discussão de ideias.” Coradi citou como exemplo o movimento Vida Além do Trabalho, liderado pelo vereador carioca Rick Azevedo (Psol), que pleiteia o fim da jornada de trabalho 6×1. Trata-se, ela diz, de um exemplo de “programa ao máximo” – uma maneira acessível de divulgar pautas da esquerda sem moderar o discurso. As resoluções serão discutidas em grupos de trabalho e, depois, submetidas à apreciação geral do partido. Não há previsão de quando o novo programa ficará pronto. Glauber Braga disse não saber que mudanças serão feitas no texto, nem quando. “Lula entregou-se aos antigos adversários e voltou as costas às suas combativas bases sociais históricas. Transformou-se num agente na defesa dos interesses do grande capital financeiro. Na esteira dessa guinada ideológica do governo, o Partido dos Trabalhadores foi transformado em correia de transmissão das decisões da Esplanada dos Ministérios”, diz o programa partidário do Psol aprovado no Minas Tênis Clube. Babá ainda concorda. Aos 71 anos, o ex-deputado conhecido pela longa cabeleira anunciou recentemente sua desfiliação do partido que ajudou a criar. “Eu considero um envelhecimento precoce do Psol”, disse à piauí. Do quarteto inicial de parlamentares, sobrou só Luciana Genro, deputada estadual no Rio Grande do Sul. Babá diz que aguarda, agora, o surgimento de um novo partido que represente a causa socialista. Gabriela Sá Pessoa É jornalista em São Paulo. Escreve para a The Associated Press e já trabalhou no New York Times, no Washington Post, no UOL e na Folha de S.Paulo. Foi Elizabeth Neuffer Fellow da International Women's Media Foundation em 2023. _____________________________________________________________________________________________________ Focus: mercado mantém estimativa de inflação e vê PIB menor em 2025 Segundo o Relatório Focus, do BC, inflação no Brasil em 2025 será de 5,65%, enquanto PIB deve crescer 1,97%. Selic fecharia este ano em 15% Por: Metrópoles Publicado em: 31/03/2025 08:41 Recentemente o presidente Lula (PT) disse que responsabilidade fiscal não é a prioridade do governo (Crédito: BRENO ESAKI/METRÓPOLES) Os analistas do mercado financeiro consultados pelo Banco Central (BC) mantiveram inalterada a estimativa de inflação para 2025 em relação à semana passada. É o que mostra a nova edição do Relatório Focus, divulgada nesta segunda-feira (31/3). Em fevereiro deste ano, o IPCA ficou em 1,31%, uma alta de 1,15 ponto percentual em relação a janeiro e a maior taxa para o mês em 22 anos. No acumulado de 12 meses até fevereiro, a inflação no país foi de 5,06%, ainda acima do teto da meta. Confira a matéria completa no Metrópoles. ______________________________________________________________________________________________________________